Como Cheguei ao Lohan

Primeiramente agradeço ao Mestre Luis Mello, nosso Shifu do Instituto Lohan, por ter me honrado com o convite para estar entre os primeiros a inaugurar o blog dos alunos. Convite este que quase recusei por hora, por ser, talvez, um dos mais novos alunos atualmente, com um pouco mais de três meses de prática, então, logo, não estaria em posição de escrever algo adequado. Entretanto, pensei que talvez possa ser interessante registrar como cheguei ao Instituto, e minha perspectiva do mesmo como budista praticante há pouco mais de um ano, até então.

Já havia visto na internet algo sobre o Lohan em 2015, nas minhas primeiras pesquisas sobre o budismo, sobre a linhagem chan/zen e sua história decorrente do Monastério Shaolin. Achei interessante o conteúdo, porém, julgando pelas apresentações teatrais nas aparições na TV, achei que não era um grupo sério, ou então que não seria acessível, em diversos níveis. Então, certo dia, mais ou menos, na metade do já passado ano de 2017, estava numa tarde no templo sotozen Busshinji, costurando meu rakusu, quando me ocorreu a necessidade de ir atrás de um caixa eletrônico. Uma colega disse que o mais próximo seria na Avenida Conselheiro Furtado, virando à esquerda de onde eu ia, andando alguns quarteirões. Jamais vim a encontrar meu banco naquela rua, mas avistei, na calçada oposta, o Templo Lohan, pela primeira vez. Então me ocorreu: Acho que estão falando sério.

Alguns meses mais tarde, tendo acabado de conseguir meu primeiro emprego, saindo do escritório de RH na São Joaquim, fui procurar o Instituto Lohan, pois, com a minha nova rotina, seria impossível manter a minha prática regular de zazen, e já estava sentindo muita falta de uma atividade física interessante (o que, para mim, significa arte marcial). Marquei minha primeira aula na sede no instituto, que seria ministrada no templo, sábado de manhã, no dia em que eu começaria no trabalho. Esta é provável que seja uma diferença com relação a alguns colegas: Eu não estava procurando uma boa escola de kung fu, wing chun, ou as demais modalidades – isto eu achei por acaso. Eu procurava um local adequado para dar a continuidade a prática zen, a escola de budismo na qual eu me encontrei, após alguns estudos e alguma insistência de prática na tradição Gelugpa, tibetana.

Isto é interessante de ser colocado pois, em três meses de treino, eu observei e ouvi histórias de algumas pessoas que não souberam se adequar à escola, que não entenderam a postura do Shifu. Talvez os falte bagagem teórica, ou experiência de vida; vivência em academia de arte marcial (eu já tendo praticado em meios diferentes, outras artes, vi com normalidade a primeira aula), ou, conforme nos transmitiu Lama Michel Rinpoche, simplesmente algumas pessoas não tem méritos para entender determinados tipos de ensinamento, reconhecer certos tipos de mestre; ao que se diz, não tem afinidade cármica. Isto, na minha opinião, reflete o quanto o Lohan é especial; o quão é diferente o que fazemos lá do que é feito em uma escola normal de wushu. Reflete, obviamente, o nosso despreparo cultural enquanto sociedade, para entender o que seria na prática adaptar as tradições milenares do kung-fu original ao nosso contexto; sem mimetismos ou deturpações, com naturalidade, espontaneidade.

Mantendo viva a tradição shaolin, o mestre não está lá para manter você na sua zona de conforto, com discursos motivacionais, adulações, sorrisos sociais… Os grandes mestres estão lá para mostrar o que está errado em você; para tirar de você o melhor desempenho, e depois o melhor ainda. O mestre verdadeiro não está lá para ter paciência com o erro, mas sim para mostrar o erro ao aluno, e fazer, este sim, cultivar paciência e retificar o erro. Em resumo, o mestre não vai a aula cultivar, para o benefício próprio, a própria virtude; o mestre vai fazer o melhor para que com que o aluno cultive as dele. É outro paradigma de atitude, que muitos ocidentais, mesmo os que se querem budistas, custam a entender; o que remete muito ao que conta a famosa Monja Coen em suas palestras; que levou nove anos para reconhecer verdadeiramente as virtudes de sua mestre, a abadessa de seu convento em Nagoya, devido ao seu próprio ego, por esta ser uma mestra de poucas palavras. Porém, aqueles que passam algum tempo extra com o Shifu e os alunos mais antigos, em alguma atividade especial, que eventualmente acontece no templo, conhece o lado bem humorado, compreensivo e amigável do mestre, em um contexto distinto da prática marcial. No final, é tudo uma questão de saber ler e realizar o comportamento adequando a cada momento da vida.

Por fim, relato que em virtude dos métodos praticados Instituto Lohan, em três meses de treino tive um ganho muscular sem precedentes para o período, sinto uma grande paz e um novo nível de profundidade de compreensão do dharma de Buda desde que tive o primeiro contato com o budismo; me sinto muito bem vindo, acolhido como membro desta grande família de kung fu, como nunca senti em qualquer outro coletivo, e tenho vivido estes dias com consciência de que são os melhores dias da minha vida, e que dias ainda melhores virão. E eu convido a todos que gostariam de entender melhor a profundidade do kung fu ancestral, e principalmente aqueles que acreditam não estarem a altura disso, a virem praticar conosco e ter a sua própria experiência neste meio hábil do caminho silencioso, que não pode ser colocado em palavras.

Com profunda gratidão e reverência ao mestre e colegas,

Leandro Koller,
São Paulo, 08 de janeiro de 2018.