ASPECTOS CULTURAIS DO KUNG FU
”A convivência harmoniosa entre os vizinhos atraem os que vivem longe”
O Mestre disse: “É por retomar o antigo que se
aprende o novo, e assim nos tornamos mestres” (Os Analectos, 2: 11).
Acredito que o que diferencia o Kung Fu das demais artes marciais é exatamente os fundamentos intelectuais e culturais. Tradição é importante. Escrevemos num computador, mas é necessário saber escrever com a caneta também.
O que é Kung Fu?
Tal questão pode ser comparada a esta: O que é Dança? O que é Budismo? O que é Xadrez? O verdadeiro Kung Fu é especial e, assim sendo, não é definido e nem rotulado. O Kung Fu real é um estado de espírito, um pensamento, uma cultura popular, uma filosofia prática, um modo de viver. Transformar seu conteúdo em palavras é o mesmo que descrever a lua para um cego.
O Kung Fu que pode ser explicado não é o Kung Fu verdadeiro. É como a definição do Tao, irrotulável. Se quiséssemos reduzir o Kung Fu ao seu menor denominador comum, ele se pareceria como que o povo pensa que ele é – um mero método de defesa pessoal. E, muito embora o combate pessoal seja uma parte significante da técnica, o Kung Fu se expandiu destes estreitos limites há milhares de anos. O principal responsável por tal transformação foi sem sombra de dúvida as filosofias budistas e taoístas.
O Kung Fu trabalha com o conceito de Wu Tao (caminho da guerra). Trilhando a via da guerra devemos desenvolver diversas manifestações da arte e ciências humanas. Na China para ser considerado Mestre (Shi Fu), deve-se demonstrar grande formação. Dos diversos conhecimentos temos a Filosofia, Medicina, Caligrafia, Pintura, Poesia, Música, artesanato em geral e comportamento. É claro que o treinamento é o principal, mas não poderíamos chamar de Kung Fu somente um punhado de golpes para atingir o adversário. O Kung Fu transcendeu a esses estreitos limites há séculos.
Quais são as manifestações culturais que se relacionam de alguma forma com o Kung Fu?
Na música temos tradicionalmente a flauta (Zen do sopro), o fantástico toque do tambor na dança do leão e os mais cultos gostam do Er Hu (típico alaúde).
No artesanato a própria manufatura dos leões, a manutenção das armas, de placas de madeira com o nome das escolas e a fabricação das roupas.
Na caligrafia as tradicionais escrituras com pincel (Xu Fá) são afixadas nas academias (geralmente poesias), ideogramas são feitos nas bandeiras com os grandes pincéis. Diz a tradição que conhecemos um bom Kung Fu através da caligrafia. Um esgrimista não treme as mãos e um calígrafo não desenvolve agressividadeem excesso.
A espada (ou Punhos) e o pincel são opostos que se complementam. São Ying e Yang. Na poesia, os fundamentos de Kung Fu são transmitidos através de poemas e homenagens póstumas também. Devemos homenagear companheiros e mestres que partiram através de nossa expressão dos sentimentos.
“Para trilhar o caminho do real Kung-fu,
primeiro deves encontrar um sólido cavalo.
e treine suas mãos para a sua proteção.
Antes de fazer qualquer coisa,
faça de puro coração.
Suas mãos devem ser suaves como o algodão,
e duras como o aço.
Cinco portas para o corpo você tem que sentir.
Faça de sua defesa, um ataque para o seu adversário.
Ataque os oito caminhos e evite a morte,
defenda os oito caminhos e evite a morte.
A pratica desenvolverá e conservará sua perícia,
como duas serpentes num combate sem fim.
Só assim você encontrará a Iluminação de Buda.”
Ensinamentos técnicos também são recitados em voz alta pelos praticantes de Kung Fu enquanto repetem as formas (Tao Lu). Poemas também são utilizados em convites e certificações.
A filosofia e literatura clássica chinesa influenciaram grandemente o desenvolvimento desta arte marcial. Os fundamentos teóricos são explicados através do Tao. Os conceitos de ética, moral e comportamento são herdados de Confúcio. As buscas sobre o auto conhecimento e espiritualidade são budistas.
Medicina Tradicional Chinesa – Um bom mestre de Kung Fu é aquele que além de saber quebrar (com golpes) sabe concertar (com medicina). Mestres de Kung Fu geralmente dominam alguma área da MTC (Medicina Tradicional Chinesa) como a acupuntura, moxabustão, fitoterapia, massagem, ventosas e Chi Kung.
Os conhecimentos sobre fisiologia Zhang Fu (cinco órgãos e seis vísceras) , o caminho dos meridianos, pontos críticos de energia e anatomia facilitou o desenvolvimento de pontos energéticos fatais. O Dan Xie, ou pontos de energia são golpeados enquanto a energia passa por ele. Tais pontos podem apenas atordoar, causar sangramento, hemorragia, convulsões ou até mesmo levar à morte.
Diz-se que um verdadeiro Mestre deve saber onde são estes pontos, como golpeá-los corretamente e como tratar alguém que recebeu um golpe em tal local. Além disso os pesados treinamentos geralmente causavam lesões e um Shifu prevenido deve saber como cuidar de seus alunos.
Conhecimentos de Feng Shui para a decoração do interior da escola e sua manufatura e posição interna também são importantes. Na escola de Kung Fu (Mo Kwoon), existe o lugar correto para a colocação das armas longas, armas curtas, santuário da família e mestres, plantas ornamentais e imagem do General Kwan (deus da guerra e da literatura e dizem ter sido general e ministro da justiça – hoje o protetor da arte marcial).
A posição dos móveis são determinadas seguindo a teoria dos cinco elementos (Metal, Fogo, Água, Madeira e Terra), cinco animais (Tigre, Fênix, Tartaruga, Serpente e Dragão), Ying Yang e Ba Gua. Diz a frase:
“Em Feng Shue devemos esconder o Tigre e mostrar o Dragão”.
O Xiong Qi ou Xadrês chinês e o Go ou Wei Chi desenvolvem o senso estratégico e tático no indivíduo, alem de ampliar e otimizar o raciocínio, aumentam a percepção e o despertar a coragem.
O Chá Tao – Caminho do Chá – desenvolve nosso poder de concentração. Aprendemos com o chá a sentir prazer nas pequenas coisas da vida como ferver a água a uma temperatura correta, observar a erva se decompondo no bule e a percebermos o suave aroma e sabor do chá. Artes como a pintura (Xu Y Mo), Bonsai (Pen Jin) e Ikebana (Hua Tao- caminho das flores), despertam a sensibilidade que um praticante dedicado de artes marciais talvez perca num treinamento duro.
Com a prática do Chi Kung (Nei Tan – alquimia interna) desenvolvemos nossa energia interna, intuição, concentração e até mesmo capacidade paranormais.
O yoga juntamente com a filosofia clássica chinesa nos auxilia a compreender melhor o universo, nos livra de doenças e nos cura delas, além de auxiliar no auto conhecimento.
Somente o Chi Kung é outro tema a ser largamente estudado.
Como foi mostrado o Kung Fu é desenvolvido juntamente com as diversas disciplinas chinesas. Separá-las dele é impossível.
O estudo do Kung Fu como caminho (Tao) exige que o praticante saiba reconhecer atributos de Tao e Dharma. Tais estruturas de pensamento pouco (ou nada) têm a ver com religião. Tao é o Grande Caminho, Dharma a Grande Lei.
Enfim, Tao é o caminho que o homem deve seguir se ele procura realizar-se enquanto homem.
Confúcio (551-479 a.C.), vivendo numa época de constante guerra, de caos político e social (a chamada Era dos Estados Combatentes – quando todos os valores humanos estavam desmoronando, esquecidos, desprezados), procurou restaurar a harmonia, a ordem e o amor na sociedade.
Em meio a esses conflitos, Confúcio empreendeu o resgate do estudo dos ritos e dos grandes Reis e dedicou sua vida a buscar um ideal e uma realização: ser conselheiro de um grande Rei e governar para a paz.
Para tanto, compilou as obras mais importantes dos escritos antigos (datadas de até dois mil e quinhentos anos antes de Confúcio), reorganizou-as e editou-as de acordo com seus princípios. E depois de sua morte, esses pensamentos têm predominado na cultura chinesa até hoje, portanto, por outros dois mil e quinhentos anos…
É o mesmo Confúcio quem nos Analectos (7, 19), proclama o valor da lembrança dos ensinamentos dos Antigos:
Confúcio disse: “Eu não nasci sábio. Gosto da sabedoria dos antigos e busco neles para o meu ser” (ed. cit. p. 275)
O que o Mestre afirma, portanto, é que não inventou nada, mas sim aprendeu com os antigos, e aquele que também assim fizer, será sábio:
É por retomar o antigo que se aprende o novo, e assim nos tornamos mestres” (Os Analectos, 2: 11).
Não se trata, porém, de “conservadorismo”, pelo contrário: a recordação dos Antigos é condição de progresso. É o que diz o Mestre no Livro da Harmonia Perfeita(27,6):
É por respeitar a natureza virtuosa que o homem verdadeiro dedica-se a aprender o Tao. Examinando em conjunto e por miúdo; do máximo da claridade encontra o caminho do meio. É por retomar os antigos que se descobre o novo e, com isto, honra os Ritos. (ed. cit. p. 815)
Não será este precisamente o sentido profundo do essencial papel conferido aos Ritos na educação confuciana? Qual o sentido dos ritos – que, no Oriente não são rituais vazios – senão o de ajudar a memória do ser humano esquecente?
Confúcio diz que os ritos são honrados (isto é, cumprem sua missão) se remetem aos ensinamentos dos antigos…
E no âmbito pessoal, no cotidiano, também devemos recordar quem somos, o que fizemos e o que queremos… e é muito importante que reflitamos todos os dias sobre o que deixamos de aprender ou sobre nossos erros e falhas, e ao final de “um mês” não esquecer as verdades essenciais:
Disse Tsi-Hah: “Perceber a cada dia o que se perdeu (pelo esquecimento…), e em um mês, não esquecer daquilo que aprendeu; pode-se afirmar que isto é gostar de aprender. (Os Analectos, 19:5).
Segundo Confúcio os ritos são importantes. Ritos nada tem relacionado com religião. “É realizando os ritos, que aprendemos o conhecimento do Passado”. (Confúcio)
Aquilo que o Céu confere é chamado “natureza”.
O que está em harmonia com a natureza é chamado Tao.
O cultivo do Tao é chamado pedagogia.”
As artes marciais quando se afastam do Zen e do Tao transformam-se em um conglomerado de golpes vazios. Observando mais minuciosamente isto acaba simplificando por demais as artes de combate orientais, particularmente o Kung Fu.
Antes de concluirmos que a civilização ocidental pode ou deve dispensar os métodos de pensamento orientais devemos nos perguntar. O que é filosofia oriental? Logo em seguida devemos ter conhecimento que que o Kung Fu (Wu Shu) é um dos grandes veículos de prática do pensamento clássico chinês.
“Foi assim que aprendi, é assim que pratico e é assim que ensinarei, e desta maneira transmito a tradição dos patriarcas!’











