A transmissão da Lâmpada

O ENSINAMENTO ZEN DE BODHIDHARMA

INTRODUÇÃO

O budismo chegou à China 2.000 anos atrás. Reporta-se que já no ano 65 d.C., uma comunidade de monges budistas vivia sob proteção da realeza na parte norte da Província de Kiangsu, próxima do local de nascimento de Confúcio, e os primeiros monges provavelmente chegaram 100 anos antes. Desde então, dezenas de milhares de monges da Índia e da Ásia Central têm viajado para China por terra e mar, mas dentre aqueles que trouxeram os ensinamentos de Buda para China, nenhum teve impacto comparável ao de Bodhidharma.

Conhecido apenas por alguns discípulos durante sua vida, Bodhidharma é o patriarca de milhões de zen-budistas e de estudantes de kung-fu. Também é o protagonista de muitas lendas. Além de ter trazido zen e kung-fu, relata-se também ter trazido o chá para a China. Para se resguardar de cair no sono durante a meditação, ele cortou suas pálpebras, e onde elas caíram cresceram arbustos de chá. Desde então, o chá tornou-se a bebida não somente de monges mas de todos no Oriente. Fiéis a essa tradição, os artistas invariavelmente representam Bodhidharma com olhos salientes e sem pálpebras.

Como sempre acontece com as lendas, tornou-se impossível separar fato de ficção. As datas são incertas. De fato, eu conheço pelo menos um erudito budista que duvida que Bodhidharma tenha existido. Mas correndo o risco de escrever sobre um homem que nunca existiu, eu esbocei uma biografia, baseada nos registros mais recentes e algumas suposições, para fornecer um cenário para os sermões a ele atribuídos.

Bodhidharma nasceu em torno do ano 440 em Kanchi, capital do reino sulista indiano de Pallawa. Ele era um brâmane de nascimento e o terceiro filho do Rei Simhavarman. Quando ele era jovem, ele converteu-se ao budismo, e mais tarde o Dharma lhe foi ensinado por Prajnatara, de Magadha, que foi convidado pelo seu pai. Magadha era o antigo centro do budismo. Também foi Prajnatara quem disse para Bodhidharma ir para China. Uma vez que a tradicional rota terrestre estava bloqueada pelos hunos, e uma vez que Pallawa tinha laços comerciais por todo Sudeste Asiático, Bodhidharma partiu de navio de um porto nas proximidades, Mahaballipuram. Depois de contornar a costa da Índia e a Península da Malásia por três anos, ele finalmente chegou ao sul da China ao redor do ano 475.

Nessa época o país estava dividido pelas dinastias Wei do norte e Liu Sung. Essa divisão da China numa série de dinastias nortistas e sulistas começou no início do Séc. III e continuou até o país ser reunificado sob a dinastia Sui no fim do Séc. VI. Foi durante esse período de divisão e conflito que o budismo indiano transformou-se em budismo chinês, com os nortistas de mente militarista enfatizando meditação e mágica e os intelectuais sulistas preferindo discussão filosófica e a compreensão intuitiva de princípios.

Quando Bodhidharma chegou à China, no fim do Séc. V, havia aproximadamente 2 mil templos budistas e 36 mil clérigos no sul. Ao norte, um recenseamento em 477 contou 6,5 mil templos e aproximadamente 80 mil clérigos. Menos de 50 anos mais tarde, outro recenseamento feito ao norte aumentou esses números para 30 mil templos e 2 milhões de clérigos, ou cerca de 5% da população. Sem dúvida, isso incluía muitas pessoas que estavam tentando evitar impostos ou recrutamento ou que procuravam a proteção da igreja por outras razões não religiosas, mas claramente o budismo estava espalhando-se pelas pessoas comuns ao norte do Rio Yangtze. No sul, permaneceu muito confinado à elite educada até o Séc. VI.

Seguindo a sua chegada ao porto de Nanhai, Bodhidharma provavelmente visitou centros budistas no sul e começou a aprender Chinês, se é que ele já não havia feito isso em seu caminho desde a Índia. De acordo com A Transmissão da Lâmpada de Tao-yuan, obra terminada em 1002, Bodhidharma chegou ao sul tarde, em 520, e foi convidado para capital em Chienkang para uma audiência com o Imperador Wu da dinastia Liang, sucessor de Liu Sung. Durante esse encontro o imperador perguntou sobre o mérito de executar trabalhos religiosos, e Bodhidharma respondeu com a doutrina do vazio. O imperador não entendeu, e Bodhidharma partiu. Os registros mais recentes, no entanto, não mencionam tal encontro.

Em qualquer caso, Bodhidharma cruzou o Rio Yangtze – de acordo com a lenda, numa embarcação de bambu – e estabeleceu-se ao norte. Primeiramente ele permaneceu ao norte na capital de Wei, Pingcheng. Em 494, quando o Imperador Hsiao-wen mudou sua capital para o sul de Loyang na margem norte do Rio Lo, a maioria dos monges que viviam na área de Pingcheng mudou-se também, e Bodhidharma provavelmente estava entre eles. De acordo com o livro Vidas Remotas de Monges Exemplares de Tao-hsuan, cujo primeiro esboço foi escrito em 645, Bodhidharma ordenou um monge com o nome Sheng-fu. Quando a capital foi mudada para Loyang, Sheng-fu mudou-se para o sul. Uma vez que a ordenação normalmente requer um aprendizado de três anos, Bodhidharma já devia estar ao norte em torno do ano 490 e então devia estar razoavelmente fluente em Chinês.

Alguns anos mais tarde, em 496, o imperador ordenou a construção do Templo de Shaolin no Monte Sung, na Província de Honan ao sudeste de Loyang. O templo, que ainda existe (principalmente como atração turística), foi construído para outro mestre de meditação da Índia, e não para Bodhidharma. Embora mais mestres zen passaram pelo templo nos últimos 1.500 anos, Bodhidharma é o único monge que alguém além de um historiador budista associa com Shaolin. Foi aqui, no Pico Shaoshih ocidental do Monte Sung, que se diz que Bodhidharma passou nove anos em meditação, de frente para parede de pedra de uma caverna a cerca de uma milha do templo. Shaolin mais tarde tornou-se famoso como centro de treinamento de monges em kung-fu, e Bodhidharma é honrado como o fundador dessa arte igualmente. Vindo da Índia, sem dúvida ele instruiu seus discípulos em alguma forma de yoga, mas nenhum registro antigo menciona-o ensinar qualquer exercício ou arte marcial.

Pelo ano 500, Loyang era uma das maiores cidades no mundo, com uma população acima de meio milhão. Quando o Imperador Hsuan-wu morreu em 516 e a imperadora Dowager Ling assumiu o controle do governo, um de seus primeiros atos foi mandar construir o Templo Yung-ning. A construção desse templo e de seu pagoda de 400 pés de altura quase exauriram o tesouro imperial. De acordo com um registro dos templos de Loyang escrito em 547 por Yang Hsuan-chih, os sinos-de-vento dourados pendurados nos beirais do telhado podiam ser ouvidos a três milhas de distância e a ponta do pagoda do templo podia ser vista a 30 milhas de distância. O relato de Yang inclui os comentários de um monge do leste chamado Bodhidharma, que disse ser a estrutura mais imponente que ele já tinha visto. Uma vez que o templo não foi construído antes de 516 e foi destruído por fogo em 534, Bodhidharma deve ter estado na capital por volta de 520. Registros antigos dizem que ele viajou por toda área de Loyang, indo e vindo com as estações. Na capital, no entanto, ele deve ter estado no Templo Yung-ming. Não confundir com o Templo Yung-ning, Yung-ming foi construído alguns anos antes, no começo do século VI, pelo Imperador Hsuan-wu, como templo central para monges estrangeiros. Antes da evacuação de massas da cidade durante o colapso de Wei ao norte em 534, o templo foi lar de mais de 3 mil monges de países tão distantes como a Síria.

Apesar da súbita popularidade do budismo na China, Bodhidharma encontrou poucos discípulos. Além de Sheng-fu, que se mudou para o sul logo após a ordenação, os únicos discípulos mencionados são Tao-yu e Hui-k’o. Diz-se que ambos estudaram com Bodhidharma por cinco ou seis anos. Tao-yu, nos é dito, entendeu o Caminho mas nunca ensinou. Foi para Hui-k’o que Bodhidharma confiou o manto e a tigela de sua linhagem e, de acordo com Tao-hsuan, uma cópia da tradução do Sutra Lankavatara feita por Gunabhadra. No sermão traduzido aqui, no entanto, faz citações principalmente do Sutra do Nirvana, Avatamsaka e Vimilakirti e não usa terminologia alguma característica do Lankavatara. Talvez tenha sido Hui-k’o, e não Bodhidharma, quem tinha uma boa opinião desse sutra.

Em sua Transmissão da Lâmpada, Tao-yuan diz que logo depois que ele transmitiu o patriarcado de sua linhagem para Hui-k’o, Bodhidharma morreu em 528 no quinto dia do décimo mês, envenenado por um monge ciumento. Tao-hsuan somente diz, em sua biografia muito mais antiga, que Bodhidharma morreu nas margens do rio Lo e não menciona a data e a causa da morte. De acordo com Tao-yuan, os restos de Bodhidharma foram enterrados perto de Loyang no templo Tinglin na Montanha Orelha de Urso. Tao-yuan também diz que três anos mais tarde um oficial encontrou Bodhidharma caminhando nas montanhas da Ásia Central. Ele estava carregando um cajado no qual estava pendurada uma única sandália, e ele disse ao oficial que estava voltando para a Índia. Relatos desse encontro levantaram a curiosidade dos outros monges, que finalmente concordaram em abrir a tumba de Bodhidharma. Tudo que eles encontraram dentro foi uma única sandália, e desde então Bodhidharma tem sido representado carregando um cajado no qual se pendura a sandália faltante.

Com o assassinato do Imperador Hsiao-wu em 534, a nortista Wei dividiu-se em duas dinastias, Wei Ocidental e Oriental, e Loyang foi atacada. Uma vez que a poderosa família Kao de Wei Oriental era famosa por seu patrocínio ao budismo, muitos dos monges que viviam em Loyang, incluindo Hui-k’o, mudaram-se para Yeh, capital de Wi Oriental. Lá finalmente Hui-k’o encontrou T’an-lin. T’an-lin trabalhou primeiramente em Loyang e mais tarde em Yeh escrevendo prefácios e comentários para novas traduções dos sutras budistas. Depois de encontrar Hui-k’o, ele ficou interessado na abordagem ao budismo de Bodhidharma e adicionou um breve prefácio ao Esboço da Prática. Nesse prefácio ele diz que Bodhidharma veio do sul da Índia e que depois de sua chegada à China, ele achou apenas dois discípulos de valor, Hui-k’o e Tao-yu. Ele também diz que Bodhidharma ensinava meditação na parede e as quatro práticas descritas no Esboço.

Se isso é tudo que sabemos de Bodhidharma, por que, então, é ele o mais famoso de milhões de monges que estudaram e ensinaram o Dharma na China? A razão é que a ele somente é creditado ter trazido o zen para China. É claro que o zen, como meditação, tinha sido ensinado e praticado por centenas de anos antes de Bodhidharma chegar. E muito do que ele tinha para dizer a respeito da doutrina tinha sido dito antes – por Tao-sheng, por exemplo, uma centena de anos antes. Mas a abordagem ao zen de Bodhidharma era única. Como ele diz nesses sermões “Ver sua natureza é zen… Não pensar sobre coisa alguma é zen… Tudo que você faz é zen.” Enquanto outros viam o zen como purificação da mente ou como um estágio no caminho para budeidade, Bodhidharma equacionou zen com a budeidade – e a budeidade com a mente, a mente do dia-a-dia. Em vez de dizer aos seus discípulos para purificarem suas mentes, ele lhes apontava paredes de pedra, movimentos de tigres e garças, uma embarcação de bambu flutuando no do Rio Yangtze, uma sandália. O zen de Bodhidharma era zen Mahayana, e não zen Hinayana – a espada da sabedoria, e não a almofada de meditação. Como fizeram outros mestres, sem dúvida ele instruiu seus discípulos em disciplina budista, meditação e doutrina, mas ele usou a espada que Prajnatara lhe deu para livrar-lhes a mente das regras, transes e escrituras. Tal espada, no entanto, é difícil de pegar e difícil de usar. É uma pequena maravilha o fato que seu único sucessor, Hui-k’o, tinha um braço só.

Mas tal entendimento radical do zen não originou-se com Bodhidharma ou com Prajnatara. Dizem que um dia Brahma, senhor da criação, ofereceu a Buda uma flor e pediu-lhe para pregar o Dharma. Quando Buda levantou a flor, sua audiência estava confusa, exceto Kashyapa, que sorriu. Foi assim que o zen começou. E foi assim que ele foi transmitido: com uma flor, com uma parede de pedra, com um grito. Essa abordagem, uma vez que se fez conhecida por Bodhidharma e seus sucessores, revolucionou o entendimento e prática do budismo na China.

Tal abordagem não se encontra por acaso muito bem em livros. Mas em seu livro Vidas Remotas de Monges Exemplares, Tao-hsuan diz que os ensinamentos de Bodhidharma foram escritos. Muitos eruditos concordam que Esboço da Prática é um de tais registros, mas as opiniões dividem-se a respeito dos outros três sermões aqui traduzidos. Todos os três há muito são atribuídos a Bodhidharma, mas em anos recentes um número de eruditos tem sugerido que esses três sermões são trabalhos de discípulos mais jovens. Yaganida, por exemplo, atribui o Sermão do Ciclo da Vida* a um membro da Escola de Zen Cabeça de Boi, que floresceu nos séculos VII e VIII, e pensamos que o Sermão do Despertar foi um trabalho do Séc. VIII da escola de zen do norte e que o Sermão da Grande Descoberta era de Shen-hsiu, o patriarca do Séc. VII da escola de zen do norte.

Lamentavelmente, faltam evidências que comprovem ou não a autoria. Até o corrente século, as cópias conhecidas mais antigas desses sermões são versões do Séc. XIV dos originais da dinastia T’ang (618-907) da coleção Kanazawa Bunko do Japão. Mas com a descoberta de milhares de manuscritos budistas da dinastia T’ang no início deste século nas cavernas Tunhuang na China, agora temos cópias dos séculos VII e VIII. Claramente esses sermões foram cedo compilados por monges que remontavam seus ancestrais até Bodhidharma. Se não foi Hui-k’o ou um de seus discípulos, talvez tenha sido T’an-lin quem os escreveu. Em qualquer caso, na ausência de evidências contrárias convincentes, eu não vejo razão para não aceitar os sermões como do homem a quem têm sido atribuídos por mais de 1.200 anos.

Os discípulos de Bodhidharma foram poucos, e a tradição zen que remonta seus ancestrais a ele não começou seu florescimento pleno até aproximadamente 200 anos após sua morte. Dada a espontaneidade e desapego promovidos pela abordagem de Bodhidharma ao zen, é fácil ver porque esses sermões foram por fim negligenciados em favor de sermões de mestres zen nativos. Por comparação, os sermões de Bodhidharma parecem um tanto estranhos e despojados. Eu mesmo só os encontrei por acaso, numa edição da Essência da Transmissão da Mente de Huan-po. Isso foi 12 anos atrás. Desde então eu afeiçoei-me ao seu zen de ossos nus, e eu sempre tento imaginar por que eles não são mais populares. Mas, populares ou não, ei-los novamente. Antes que se evanesçam novamente na poeira de alguma cripta ou biblioteca, leia-os uma ou duas vezes e procure a única coisa que Bodhidharma trouxe para a China: procure a marca da mente.

Pinheiro Vermelho

Lago do Bambu, Taiwan

Grande Frio, Ano do Tigre

* N. da T. brasileira: A tradução literal do ideograma para esse sermão seria Sangüíneo. O título em Inglês é Sistema Circulatório.

O ENSINAMENTO ZEN DE BODHIDHARMA

ESBOÇO DA PRÁTICA

Muitas estradas levam ao caminho (1), mas basicamente há apenas duas: prática e razão. Entrar pela razão significa perceber a essência através de ensinamentos e acreditar que todos seres vivos compartilham a mesma natureza verdadeira, a qual é dissimulada pela sensação e ilusão. Aqueles que saem da ilusão para a realidade, os que meditam defronte à parede (2) a ausência de dualismo, a unidade de mortalidade e sabedoria, e que permanecem impassíveis mesmo perante as escrituras estão em concordância completa e óbvia com a razão. Sem se moverem, sem esforços, eles entram, dizemos, pela razão.

Entrar pela prática refere-se as quatro práticas (3) levadas em consideração: sofrer injustiça, adaptar-se às condições, nada buscar e praticar o Dharma.

Primeiramente, sofrer injustiça. Quando aqueles que buscam o caminho encontram adversidades deveriam pensar: “por incontáveis eras eu tenho dedicado-me ao trivial em detrimento do essencial e vagueado em todo tipo de existência, raivoso sem motivo e culpado de inúmeras transgressões. Agora, embora eu não cometa erros, sou punido pelo meu passado. Nem os deuses nem os homens podem antever quando uma má ação frutificará. Aceito isso de coração aberto e sem reclamação.” Dizem os sutras: “Quando você encontra adversidade não se exaspere, ela é justa”. Com tal entendimento você está em harmonia com a razão. E sofrendo injustiça você entra no caminho.

Em segundo, adaptando-se às condições. Como mortais, somos regidos por condições e não por nós mesmos. Todo sofrimento e toda alegria que experimentamos depende de condições. Se devêssemos ser agraciados por algum grande prêmio, tal como fama ou fortuna, é o fruto da semente plantada por nós no passado. Quando mudam as condições, isso cessa. Por que me deliciar com esta existência? Mas, enquanto o sucesso e o insucesso dependem de condições, a mente não cresce nem diminui. Aqueles que permanecem impassíveis perante os ventos da alegria silenciosamente seguem o Caminho.

Em terceiro, nada buscar. As pessoas estão iludidas. Estão sempre ansiando por algo –sempre, por assim dizer, buscando. Mas os sábios despertam. Eles escolhem a razão em vez dos hábitos. Eles fixam suas mentes no sublime e deixam seus corpos mudarem com as estações. Todos os fenômenos são vazios. Eles nada contêm que valha desejar. A Calamidade alterna-se com a Prosperidade (4). Habitar nos três reinos (5) é habitar numa casa em chamas. Ter um corpo é sofrer. Alguém com um corpo conhece a paz? Aqueles que compreendem isso desapegam-se de todas as coisas existentes e param de imaginar ou buscar algo. Os sutras dizem: “Buscar é sofrer. Nada buscar é encontrar a satisfação”. Quando você nada busca, você está no Caminho.

Em quarto, praticar o Dharma (6). O Dharma é a afirmação de que todas as naturezas são puras. Através dessa verdade, todas aparências são vazias. Decadência e apego, sujeito e objeto não existem. Os sutras dizem: “O Dharma não inclui seres, pois o Dharma está livre da impureza do eu.” Aqueles que são sábios o suficiente para acreditar e entender esta verdade estão ligados à prática de acordo com o Dharma. E uma vez que isso é real, incluindo que nada vale a pena invejar, eles dão seus corpos, vidas e propriedades em caridade, sem lamentar e sem a vaidade do doador, do presente ou do presenteado. E, para eliminar impurezas, eles ensinam, mas sem apegarem-se à forma. Assim, através de sua própria prática, eles são capazes de ajudar pessoas e glorificar o Caminho da Iluminação. E, assim como a caridade, eles também praticam as outras virtudes. Mas enquanto praticam as seis virtudes (7) para eliminar a ilusão, eles nada praticam. Isso é conhecido por “praticar o Dharma”.

SERMÃO DO CICLO DA VIDA

Tudo que aparece nos três reinos vem da mente (8). Portanto, os budas (9) do passado e do futuro ensinam de mente à mente sem se importarem acerca de definições (10).

Mas se eles não definem mente, o que eles querem dizer com mente?

Você pergunta, é a sua mente. Eu respondo, é a minha mente. Se eu não tivesse mente, como eu poderia responder? Se você não tivesse mente, como poderia perguntar? Aquilo que pergunta é a sua mente. Durante kalpas (12) sem começo nem fim, qualquer coisa que você faça, onde quer que você esteja, essa é a sua mente verdadeira, esse é o seu verdadeiro buda. A afirmação essa mente é o buda (12) diz o mesmo. Além dessa mente você nunca encontrará outro buda. Procurar por iluminação (13) ou nirvana (14) além dessa mente é impossível. A realidade de sua natureza própria (15), a ausência de causa e efeito, é o que se chama de mente. Sua mente é nirvana. Você poderia achar um buda ou iluminação em algum lugar além da mente, mas tal lugar não existe.

Tentar achar um buda ou iluminação é como tentar agarrar o espaço. O espaço tem nome mas nenhuma forma. Não é algo que você possa pegar ou largar. E você certamente não pode agarrá-lo. Além dessa mente você nunca verá um buda. O buda é um produto de sua mente. Por que procurar um buda além dessa mente?

Os budas do passado e do futuro falam somente dessa mente. A mente é o buda, e o buda é a mente. Além da mente não há buda, e além de buda não há mente. Se você pensa que há um buda além da mente, onde ele está? Não há buda além da mente, então por que imaginar um? Você não pode conhecer sua mente verdadeira uma vez que você se engane. Uma vez que você seja escravizado por uma forma inanimada você não é livre. Se você não me acreditar, auto-enganar-se não ajudará. Não é falha dos budas. As pessoas estão iludidas. Elas não são conscientes de que suas próprias mentes são o buda. Do contrário, elas não procurariam por um buda fora da mente.

Os budas não salvam budas. Se você utilizar sua mente para procurar um buda, você não verá o buda. Uma vez que você procure por um buda alhures, você nunca verá que sua própria mente é o buda. Não use um buda para adorar um buda. E não use sua mente para invocar um buda (16). Budas não recitam sutras (17). Budas não mantêm preceitos (18). E budas não quebram preceitos. Budas não mantêm ou quebram coisa alguma. Budas não fazem bem ou mal.

Para encontrar um buda você tem que ver sua natureza (19). Quem quer que veja sua natureza é um buda. Se você não vê sua natureza, invocar budas, recitar sutras, fazer oferendas e manter preceitos é inútil. Invocar budas resulta em bom carma, recitar sutras resulta em boa memória, manter preceitos resulta em um bom renascimento e fazer oferendas resulta em futuras bênçãos – mas não em budas.

Se você não entende por si só, você terá que achar um professor para ensiná-lo sobre vida e morte (20). Mas, exceto veja sua natureza, tal pessoa não é um professor. Mesmo que essa pessoa possa recitar o Cânone Desdobrado em Doze (21), ela não pode escapar da Roda de Nascimentos e Mortes (22). Ela sofre nos três reinos sem esperança e liberação.

Há muito tempo atrás, o monge Boa Estrela (23) era capaz de recitar o Cânone completo. Mas ele não escapou da Roda, pois ele não via sua natureza. Se foi isso que aconteceu com Boa Estrela, então as pessoas de agora que recitam alguns sutras ou shastras (24) e pensam que isso é o Dharma são tolas. Exceto você veja sua mente recitar tanta prosa é inútil.

Para achar um buda tudo que você tem que fazer é ver sua natureza. Sua natureza é o buda. E o buda é a pessoa livre: livre de planos, livre de cuidados. Se você não vir sua natureza, e passar o tempo todo procurando noutro lugar, você nunca encontrará um buda. A verdade é: nada há para encontrar. Mas para atingir tal entendimento você precisa lutar para entender. Vida e morte são importantes. Não as sofra em vão. Não há vantagem em auto-enganar-se. Mesmo que você tenha montanhas de jóias e tantos criados quanto os grãos de areia do Ganges, você os vê quando os seus olhos estão abertos. Mas enquanto seus olhos estiverem fechados? Então você deveria perceber que tudo que você vê é como um sonho ou ilusão.

Se você não encontrar um professor logo, você viverá esta vida em vão. É verdade, você tem a natureza búdica. Mas sem a ajuda de um professor você nunca a conhecerá. Somente uma pessoa num milhão ilumina-se sem o auxílio de um professor.

Se, todavia, numa situação afortunada, uma pessoa entende o que Buda quis dizer, essa pessoa não precisa de professor. Tal pessoa tem uma consciência natural superior a todo ensinamento. Mas se você não for tão dotado, estude muito, que através da instrução você entenderá.

As pessoas que não entendem e pensam que podem entender sem estudo não são diferentes daquelas almas iludidas que não podem diferenciar branco do preto (25). Proclamando falsamente o Dharma de Buda, de fato tais pessoas blasfemam Buda e subvertem o Dharma. Elas rezam como se estivessem chamando chuva. Mas suas rezas são dos demônios (26), e não dos budas. Seu professor é o Rei dos Infernos e seus discípulos são os favoritos do demônio. Pessoas iludidas que seguem tais instruções desajeitadamente afundam no Oceano de Nascimento e Morte.

A menos que elas vejam sua natureza, como as pessoas podem  se dizer budas? Elas são mentirosas que enganam outras, fazendo-as entrar no reino dos demônios. A menos que elas vejam sua natureza, seu recitar do Cânone Desdobrado em Doze é nada além do recitar dos demônios. Devotam-se à Mara, não a Buda. Incapazes de distinguir branco de preto, como podem eles escapar de nascimentos e mortes?

Quem quer que veja sua natureza é um buda; quem não vê é mortal. Mas se você pode achar sua natureza búdica separada se sua mente de sua natureza mortal, onde ela está? Nossa natureza mortal é nossa natureza búdica. Além dessa natureza não há buda. O buda é nossa natureza. Não há buda além dessa natureza. E não há natureza além do buda.

Mas suponha que eu não veja minha natureza, não posso eu atingir a iluminação invocando budas, recitando sutras, fazendo oferendas, observando preceitos, praticando devoção ou fazendo boas

ações?

Não, você não pode atingir a iluminação fazendo isso.

Por que não?

Se você atinge algo, isso é condicional, isso é cármico. Isso resulta em retribuição. Isso gira a Roda. E uma vez que você é sujeito a renascimento e morte você nunca atingirá a iluminação. Para atingir a iluminação você tem que ver sua natureza. A não ser que você veja sua natureza toda essa conversa sobre causa e efeito é insensata. Os budas não praticam insensatez. Um buda é livre de carma (27), livre de causa e efeito. Dizer que ele atinge algo é depreciar um buda. O que ele poderia atingir? Mesmo almejar uma mente, um poder, um entendimento, ou uma visão é impossível para um buda. Um buda não é parcial. A natureza de sua mente é basicamente vazia, não é pura nem impura. Ele é livre de prática e percepção. Ele é livre de causa e efeito.

Um buda não observa preceitos. Um buda não faz bem ou mal. Um buda não é diligente ou preguiçoso. Um buda é alguém que nada faz, alguém que não pode sequer focalizar sua mente num buda. Um buda não é um buda. Não pense a respeito de budas. Se você não vê o que estou falando, você nunca conhecerá sua própria mente.

As pessoas que não vêm sua própria natureza e imaginam que elas podem praticar todo o tempo irrefletidamente são mentirosas e tolas. Elas caem num buraco sem fundo. São como bêbados. Não podem diferir o bem e o mal. Se você pretende cultivar tal prática, você tem que ver sua natureza antes que você possa terminar as racionalizações. Atingir a iluminação sem ver sua natureza é impossível.

Ainda assim outros cometem toda sorte de más ações, proclamando que o carma não existe. Eles erroneamente dizem que uma vez que tudo é vazio, cometer o mal não é errado. Tais pessoas caem num inferno de escuridão sem fim, sem esperança de liberação. Aqueles que são sábios não mantêm tal concepção.

Mas se cada movimento ou estado nosso, sempre que ocorre, é nossa mente, por que não vemos essa mente quando o corpo da pessoa morre?

A mente está sempre presente. Você simplesmente não a vê.

Mas se a mente está sempre presente, por que não a vejo?

Você sonha?

É claro

Quando você sonha, é você?

Sim, sou eu.

E o que você está fazendo ou dizendo é diferente de você?

Não, não é.

Mas se não é, então seu corpo é seu corpo real. E esse corpo real é sua mente. E essa mente, através de kalpas sem início nem fim, nunca variou. Ela nunca viveu ou morreu, apareceu ou desapareceu, aumentou ou diminuiu. Ela não é pura ou impura, boa ou má, passada ou futura. Não é falsa ou verdadeira. Não é masculina ou feminina. Ela não aparece como monge ou leigo, um noviço ou superior, um sábio ou tolo, um buda ou mortal. Não se empenha por realização e não sofre carma. Não tem energia ou forma. É como o espaço. Você não pode possuí-la e você não pode perdê-la. Seus movimentos não podem ser bloqueados por montanhas, rios ou muros de pedras. Seus poderes perpétuos penetram a Montanha dos Cinco Skandas (28) e atravessam o Rio de Samsara (29). Nenhum carma pode restringir esse corpo verdadeiro. Mas essa mente é sutil e difícil de ver. Não é o mesmo que a mente sensual. Todos querem ver essa mente, e aqueles que movem suas mãos e pés devido a sua luz são tantos como os grãos de areia ao longo do Ganges, mas quando você lhes pergunta eles não podem explicar. A mente é para ser usada. São como bonecos. Por que eles não vêm isso?

O buda disse que as pessoas estão iludidas. É porque quando elas agem elas caem no Rio do Renascimento Sem fim. E quando elas tentam sair elas somente afundam mais. E tudo isso porque elas não vêm sua natureza. Se as pessoas não estivessem iludidas, por que elas perguntariam sobre algo bem defronte delas? Nenhuma delas entende o movimento de suas mãos e pés. Buda não estava errado. As pessoas iludidas não sabem quem elas são. Algo tão difícil de penetrar é conhecido por budas e ninguém mais. Somente o sábio conhece essa mente, essa mente chamada natureza dármica, essa mente chamada liberação. Nem a vida nem a morte podem restringir essa mente. Nada pode. Ela é também chamada O Tathagata Que Não Pode Ser Parado (30), O Incompreensível, O Eu Sagrado, O Imortal, O Grande Sábio. Seus nomes variam não sua essência. Os budas variam também, mas ninguém deixa sua própria mente.

A capacidade da mente é sem limite, e suas manifestações são sem fim. Ver formas com os seus olhos, ouvir sons com os seus ouvidos, sentir odores com o seu nariz, sentir sabores com sua língua, cada movimento ou estado é sua mente. A cada momento, lá onde a linguagem não pode ir, é a sua mente.

Dizem os sutras: “As formas de um tathagata são sem fim, e assim é sua consciência.” A variedade sem fim de formas é devida à mente. Sua habilidade para distinguir coisas, qualquer que seja seu movimento ou estado, é a consciência da mente. Mas a mente não tem forma e sua consciência não tem limite. Portanto diz-se que “as formas de um tathagata são sem fim. E tal é a sua consciência.”

O corpo material em quatro elementos (31) é um problema. Um corpo material é sujeito a renascimento e morte. Mas o corpo real existe sem existir, pois o corpo verdadeiro do tathagata nunca muda. Os sutras dizem que “As pessoas deviam perceber que a natureza búdica é algo que elas sempre tiveram.” Kashyapa (32) apenas percebeu sua natureza própria.

Nossa natureza é a mente. E a mente nossa natureza. Essa natureza é o mesmo que a mente de todos os budas. Budas do passado e do futuro somente transmitem essa mente. Além dessa mente não há buda em parte alguma. Mas pessoas iludidas não percebem que suas próprias mentes são o buda. Elas continuam procurando fora. Elas nunca param de invocar budas ou venerar budas e imaginar onde está o buda. Não se entregue a tais ilusões. Simplesmente conheça sua mente. Além da sua mente não há outro buda. Dizem os sutras que “tudo que tem forma é ilusão”. Eles também dizem que “onde quer que você esteja, há um buda.” Sua mente é o buda. Não use um buda para venerar um buda.

Mesmo que repentinamente um buda ou bodhisattva (33) aparecesse diante de você não há necessidade de reverenciá-lo. Nossa mente é vazia e não contém tal forma. Aqueles que se apegam às aparências são demônios, eles desviam-se do caminho. Por que venerar ilusões nascidas da mente? Aqueles que veneram não sabem, e aqueles que sabem não veneram. Através da veneração você está a serviço de demônios. Aviso-o disso porque temo que você não esteja consciente disso. A natureza básica de um buda não tem tal forma. Mantenha isso em mente, mesmo que algo diferente apareça. Não o aceite, e não o tema, e não duvide que a sua mente é a princípio pura. Onde poderia haver espaço para tal formação? Além disso, o aparecimento de espíritos, demônios ou seres divinos não merece respeito nem medo. Sua mente é basicamente vazia. Todas aparências são ilusões. Não se apegue às aparências.

Se você vir um buda, Dharma ou bodhisattva (35) e prestar-lhe respeito você relega-se ao reino dos mortais. Se você procura entender diretamente não se apegue seja qual for a aparência, que você terá sucesso. Não tenho mais conselhos. Dizem os sutras que “todas as aparências são ilusões.” Elas não têm existência fixa, nenhuma forma constante. Elas são impermanentes. Não se adere às aparências e você terá sua mente unificada com Buda. Dizem os sutras que “aquilo que é livre de todas as formas é o buda”.

Mas por que não devemos venerar budas e bodhisattvas?

Os demônios têm o poder de manifestarem-se. Eles podem tomar a forma de bodhisattvas em todas as situações. Mas eles são falsos. Nenhum deles é buda. O buda é sua própria mente. Não desvie sua veneração.

Buddha é uma palavra sânscrita que significa desperto, miraculosamente desperto. Responder, perceber, arquear as sobrancelhas, piscar os olhos, mover as mãos e pés, tudo é sua natureza miraculosamente desperta. E essa natureza é a mente. E essa mente é o buda. E o buda é o caminho. E o caminho é zen (36). Mas a palavra zen é uma das que permanece um quebra-cabeça tanto para mortais como para sábios. Ver sua natureza é zen. A menos que você veja sua natureza, não é zen.

Mesmo que você possa explicar milhares de sutras e shastras (37), a menos que você veja sua natureza própria seu ensinamento é o de um mortal, não de um buda. O Caminho verdadeiro é sublime. Ele não pode ser expresso através de linguagem. Para que servem as escrituras? Mas alguém que veja sua natureza própria acha o Caminho, mesmo que ele não possa ler uma única palavra. Alguém que veja sua natureza é um buda. E, uma vez que o corpo de um buda é intrinsecamente puro e sem manchas, e tudo que ele diz é uma expressão de sua mente, sendo basicamente vazio, um buda não pode ser encontrado em palavras ou qualquer lugar do Cânone Desdobrado em Doze.

O Caminho é basicamente perfeito. Ele não precisa ser aperfeiçoado. O Caminho não tem formas ou som. Ele é sutil e difícil de perceber. É como quando você bebe água: você sabe quão quente ou fria está, mas você não pode explicar aos outros. Daí que somente um tathagata sabe que homens e deuses permanecem desatentos. A consciência dos mortais é rasa. Uma vez que eles são apegados às aparências, eles não estão conscientes de que suas mentes são vazias. E por aterem-se erradamente à aparência das coisas eles perdem o Caminho.

Se você sabe que tudo vem da mente, não se apegue. Uma vez apegado, você não está consciente. Mas uma vez que veja sua própria natureza, o cânone completo torna-se tagarelice. Seus milhares de sutras e shastras apenas acumulam-se numa mente clara. O entendimento acontece em meias-palavras. Para que doutrinas?

A Verdade derradeira está além das palavras. Doutrinas são palavras. Elas não são o Caminho. O Caminho é sem palavras. Palavras são ilusões. Elas não são diferentes das coisas que aparecem em seus sonhos à noite, sejam eles palácios ou carruagens, parques sombreados ou pavilhões à margem de lago. Não se deleite por tais coisas. Elas são todas berços de renascimento. Mantenha isso em mente quando você aproximar-se da morte. Não se apegue às aparências que você vencerá todos os obstáculos. A menor hesitação e você estará sob o julgo de demônios. Seu corpo verdadeiro é puro e impenetrável. Mas devido às ilusões você não está ciente disso. E por causa disso você sofre carma em vão. Onde quer que você ache deleite, você acha escravidão. Mas uma vez que você desperte para seus corpo e mente (38) originais você não está mais ligado a apegos.

Todos que renunciam o transcendente pelo mundano, em qualquer de suas miríades de formas, é um mortal. Um buda é alguém que acha liberdade na boa e má fortuna. Tal é seu poder que o carma não pode detê-lo. Não importando o tipo de carma, um buda transforma-o. Céu e inferno (39) são nada para ele. Mas a consciência de um mortal é obscura comparada com a de um buda, que penetra tudo, por dentro e por fora.

Se você não tiver certeza, não aja. Uma vez que você aja, você vagueia pelo nascimento e morte e lamenta não ter refúgio. A pobreza e a miséria são criadas pelo pensamento falso. Para entender essa mente você tem que agir sem agir. Somente então você verá as coisas pela perspectiva de um tathagata.

Mas, quando pela primeira vez você aventura-se pelo Caminho, sua consciência não tem foco. Provavelmente você verá toda sorte de cenas estranhas, como em sonhos. Mas você não deve duvidar de que tais cenas vêem de sua própria mente, e nenhum outro lugar.

Se, como num sonho, você vir uma luz mais brilhante que o Sol, seus apegos remanescentes subitamente terão fim e a natureza da realidade será revelada. Tal ocorrência serve como base para a iluminação. Mas isso é algo que somente você conhece. Você não pode explicar isso para os outros.

Ou, se enquanto você estiver caminhando, parado de pé, sentado ou deitado num bosque sereno, você vir uma luz, não importando se ela é brilhante ou obscura, não conte para os outros e não a focalize. É a luz de sua própria natureza.

Ou, se enquanto você está caminhando, parado de pé, sentado ou deitado na serenidade e escuridão da noite, tudo parecer-se como se fosse dia, não se espante. É sua própria natureza nas cercanias de revelar-se.

Mas, se enquanto você está sonhando à noite, você vir a Lua e as estrelas em toda sua claridade, isso significa que os trabalhos de sua mente estão perto de terminar. Mas não conte aos outros. E se os seus sonhos não forem claros, como se você estivesse caminhando na escuridão, é porque sua mente está dissimulada por inquietação. Isso também é algo que apenas você deve saber.

Se você vê a sua natureza, você não precisa ler sutras ou invocar budas. Erudição e conhecimentos não somente são inúteis mas também enevoam sua consciência. As doutrinas só servem para apontar para a mente. Uma vez que você veja sua mente, por que prestar atenção às doutrinas?

Para ir de mortal a buda, você tem que terminar com o carma, alimentar sua consciência e aceitar o que a vida traz. Se você está sempre ficando brabo você vai fazer sua natureza virar contra o Caminho. Não há vantagem em enganar-se. Os budas andam livremente pelo nascimento e morte, aparecendo e desaparecendo à vontade. Eles não podem ser refreados pelo carma ou dominados pelos demônios.

Uma vez que os mortais vejam sua natureza, todos os apegos findam. A consciência não está escondida. Mas você pode encontrá-la já. Somente agora. Se você realmente quer encontrar o Caminho não se apegue a nada. Uma vez que você terminar com o carma e alimentar sua consciência, todo apego residual terminará. O entendimento vem naturalmente. Você não tem que fazer esforço algum. Mas os fanáticos (40) não entendem o que o Buda quis dizer. Quanto mais eles tentam, menos eles entendem o ensinamento dos Sábios. Eles invocam budas e lêem durante todo o dia. Mas eles continuam cegos à sua natureza própria divina, e eles não escapam da Roda.

Um buda é uma pessoa sossegada. Ele não vai atrás de fortuna e fama. No fim, para que servem tais coisas? As pessoas que não vêem sua natureza e pensam que o Dharma é ler sutras, invocar budas, estudar duramente por longo tempo, praticar pela manhã e à noite, nunca deitar ou adquirir conhecimentos, blasfemam o Dharma. Os budas do passado e do futuro falam somente de ver sua natureza. Todas as práticas são impermanentes. A não ser que elas vejam sua natureza, as pessoas que dizem ter atingido a iluminação (41) completa são mentirosas.

Dentre os dez grandes discípulos de Shakyamuni (42), Ananda (43) era o primeiro em aprendizado. Mas ele não entendia Buda. Tudo que ele fazia era estudar e memorizar. Os arhats (44) não entendem Buda. Tudo que eles sabem são tantas práticas para a percepção que eles são pegos pela armadilha de causa e efeito. Tal é o carma de um mortal: nenhuma escapatória de nascimento e morte. Fazendo o oposto do que ele pretendia tais pessoas blasfemam Buda. Matá-las não seria errado. Dizem os sutras: “Uma vez que icchantikas (45) são incapazes de crer, matá-los não seria culposo, enquanto as pessoas que crêem alcançam a budeidade.

A menos que você veja sua natureza, você não deve circular criticando a bondade alheia. Não há vantagem em iludir-se. Bom e mau são distintos. Causa e efeito são claros. Céu e inferno estão bem diante de seus olhos. Mas os tolos não acreditam e vão direto ao inferno de escuridão sem fim sem mesmo sabê-lo. O que os faz não acreditar é o peso de seu carma. Eles são como cegos que não acreditam que haja tal coisa como luz. Mesmo que você explique isso para eles, eles ainda não acreditam, porque eles são cegos. Como eles poderiam distinguir a luz?

O mesmo acontece com os tolos que terminam dentre as ordens mais baixas da existência (46) ou dentre os pobres e desprezados. Eles não podem viver e eles não podem morrer. E apesar de seus sofrimentos, se você lhes pergunta, eles dizem que são tão felizes como deuses. Todos os mortais, mesmo aqueles que se pensam bem-nascidos, são igualmente desconhecedores. Devido ao peso de seu carma tais tolos não podem acreditar e não podem se ver livres.

As pessoas que vêem que suas mentes são o buda não necessitam raspar a cabeça (47). Os leigos são budas também. A menos que vejam sua natureza, as pessoas que raspam a cabeça são simplesmente fanáticos.

Mas, uma vez que leigos casados não desistem de sexo, como eles podem tornarem-se budas?

Eu falo somente sobre ver sua natureza. Eu não falo sobre simplesmente sexo porque você não vê sua natureza. Uma vez que você veja sua natureza, sexo é basicamente imaterial. Ver a natureza termina com o seu prazer no sexo. Mesmo que alguns hábitos permaneçam eles não podem lhe causar dano, pois sua natureza é essencialmente pura. Apesar de habitar num corpo imaterial de quatro elementos, sua natureza é basicamente pura. Ela não pode ser corrompida. Em seu corpo verdadeiro não há sensação, nenhuma fome ou sede, nenhum calor ou frio, nenhuma doença, amor ou apego, nenhum prazer ou dor, nenhum bem ou mal, nenhuma penúria ou fartura, nenhuma fraqueza ou força. Realmente, não há nada aqui. É somente porque você apega-se a esse corpo imaterial que coisas como fome e sede, calor e frio e doenças aparecem.

Uma vez que você pare de apegar-se e deixe as coisas irem você será livre, mesmo de nascimento e morte. Você transformará tudo. Você possuirá poderes espirituais (48) que não podem ser obstruídos. E você estará em paz onde quer que esteja. Se você duvida disso você nunca verá nada. É melhor ficar de fora fazendo nada. Uma vez que você aja, você não pode evitar o ciclo de nascimento e morte. Mas uma vez que você veja sua natureza, você é um buda mesmo que você trabalhe como açougueiro.

Mas os açougueiros criam carma carneando animais. Como eles podem ser budas?

Falo somente sobre ver sua natureza. Não falo sobre criar carma. Indiferentemente ao que fazemos, nosso carma não se apega a nós. Por kalpas sem começo nem fim, é somente porque as pessoas não vêem sua natureza que elas terminam no inferno. Uma vez que uma pessoa crie carma, ela continua nascendo e morrendo. Mas, uma vez que a pessoa perceba sua natureza original, ela pára de criar carma. Se ela não vê sua natureza, invocar budas não vai liberá-la de seu carma, indiferentemente de ser ou não um açougueiro. Mas uma vez que ela veja sua natureza todas as dúvidas dissipam-se. Mesmo o carma de um açougueiro não tem efeito sobre essa pessoa.

Na Índia, os 27 patriarcas (49) somente transmitiram o selo (50) da mente. E a única razão de eu ter vindo para a China é transmitir o ensinamento instantâneo do Mahayana (51): Essa mente é o buda. Eu não falo de preceitos, devoções ou práticas ascéticas tais como mergulhar em água e fogo, pisar numa roda de facas, comer uma refeição por dia ou nunca deitar. Esses são ensinamentos fanáticos, provisórios. Uma vez que você reconheça sua dinâmica, miraculosamente desperta natureza, sua é a mente de todos os budas. Budas do passado e do futuro somente falam sobre transmitir a mente. Nada mais eles ensinam. Se alguém entende esse ensinamento, mesmo que seja analfabeto, ele é um buda. Se você vê a sua mente miraculosamente desperta, você nunca verá um buda, mesmo que você quebre seu corpo em átomos (52).

Buda é seu corpo verdadeiro, sua mente original. Essa mente não tem forma ou características, não tem causa ou efeito, tendões ou ossos. É como o espaço. Você não pode agarrá-la. Não é a mente de materialistas ou niilistas. Exceto um tathagata, ninguém mais – nenhum mortal, nenhum ser iludido – pode penetrá-la.

Mas essa mente não está em algum lugar fora do corpo material de quatro elementos. Sem essa mente nós não podemos nos mover. O corpo não tem consciência. Como uma planta ou pedra, o corpo não tem natureza. Então, como ele move-se? É a mente que se move.

Linguagem e comportamento, percepção e concepção são todas funções da mente em movimento. Todo movimento é o movimento da mente. O movimento é sua função. Não há mente separada do movimento, e não há movimento separado da mente. Mas o movimento não é mente. E a mente não é movimento. O movimento é basicamente sem mente. E a mente é basicamente sem movimento. Mas o movimento não existe sem a mente. E a mente não existe sem o movimento. A mente não existe separadamente do movimento e o movimento não existe separadamente da mente. O movimento é função da mente, e sua função é seu movimento. Mesmo assim, a mente não se move nem funciona, porque a essência de seu funcionamento é vazia e o vazio é essencialmente sem movimento. O movimento é o mesmo que a mente. E a mente é essencialmente sem movimento.

Conseqüentemente os sutras dizem-nos para mover sem mover, viajar sem viajar, ver sem ver, rir sem rir, ouvir sem ouvir, saber sem saber, ser feliz sem ser feliz, caminhar sem caminhar, ficar de pé sem ficar de pé. E os sutras dizem: “Vá além da linguagem, vá além do pensamento”. Basicamente, ver, ouvir e saber são completamente vazios. Sua raiva, sua alegria ou dor são como de um boneco. Você pode procurar, mas nada encontrará.

De acordo com os sutras, más ações resultam em dificuldades e boas ações resultam em bênçãos. Gente braba vai para o inferno e gente feliz vai para o céu. Mas uma vez que você saiba que a natureza da raiva e da alegria é vazia e você as deixa ir, você se livra de carma. Se você não vê sua natureza, parafrasear sutras não ajuda. Eu poderia ir adiante, mas esse breve sermão fará efeito.

SERMÃO DO DESPERTAR

A essência do Caminho é desapego. E o objetivo daqueles que praticam é o desapego das aparências. Dizem os sutras: “Desapego é iluminação porque nega as aparências.” A budeidade significa consciência. Os mortais cujas mentes são conscientes alcançam o Caminho da Iluminação e são portanto chamados budas. Dizem os sutras: “Aqueles que se libertam de todas as aparências são chamados de budas.” A aparência da aparência como não aparência não pode ser vista visualmente mas pode somente ser conhecida através da sabedoria. Quem quer que ouça e acredite neste ensinamento embarca no grande veículo (53) e deixa os três reinos.

Os três reinos são a avidez, a raiva e a ilusão. Deixar os três reinos significa ir da avidez, raiva e ilusão de volta para a moralidade, meditação e sabedoria. A avidez, a raiva e a ilusão não têm natureza própria. Dependem dos mortais. E qualquer um capaz de reflexão é levado a ver que a natureza da avidez, da raiva e da ilusão é a natureza de buda. Além da avidez, raiva e ilusão não há outra natureza de buda. Dizem os sutras: “Os budas só são budas enquanto vivem com os três venenos e alimentam-se do puro Dharma.” Os três venenos são avidez, raiva e ilusão.

O grande veículo é o maior dos veículos. É o meio de transporte dos bodhisattvas que usam tudo sem usar coisa alguma e que viajam todo dia sem viajar. Tal é o veículo dos budas. Dizem os sutras: “Nenhum veículo é o veículo dos budas.”

Quem quer que perceba que os seis sentidos (54) não são reais, que os cinco agregados (55) são ficção, e que tais coisas são localizadas em qualquer lugar do corpo, entende a linguagem dos budas. Dizem os sutras: “A caverna dos cinco agregados é a sala do zen. A abertura do olho interno é a porta do Grande Veículo.” O que poderia ser mais claro?

Não pensar sobre coisa alguma é zen. Uma vez que você saiba disso, caminhar, ficar de pé, sentar-se ou deitar-se, tudo que você fizer é zen. Saber que a mente é vazia é ver o buda. Os budas das dez direções (56) não têm mente. Ver mente nenhuma é ver o buda.

Desistir de si mesmo sem lamentar-se é a grande caridade. Transcender o movimento e a imobilidade é a mais alta meditação. Os mortais permanecem em movimento, e os arhats permanecem imóveis (57). Mas a meditação ultrapassa tanto a meditação dos mortais como a dos arhats. As pessoas que alcançam tal entendimento libertam-se de todas as aparências e curam todas as doenças sem tratamento. Tal é o poder do grande zen.

Usar a mente para procurar a realidade é ilusão. Não usar a mente para olhar a realidade é consciência. Libertar-se das palavras é liberação. Permanecer não corrompido pelo pó da sensação resguarda o Dharma. Transcender vida e morte é deixar o lar (58). Não sofrer outra existência é alcançar o caminho. Não criar ilusão é iluminação. Não comprometer-se com ignorância é sabedoria. Nenhuma aflição é nirvana. E nenhum aparecimento da mente é a outra margem.

Quando você está iludido, esta margem existe. Quando você desperta, ela não existe. Os mortais permanecem nesta margem. Mas aqueles que descobrem o maior de todos os veículos não ficam nem nesta margem nem na outra margem. São capazes de deixar ambas as margens. Aqueles que vêm a outra margem como diferente desta margem não entendem o zen.

A ilusão significa mortalidade. E a consciência significa budeidade. Elas não são a mesma coisa. E elas não são diferentes. É porque as pessoas distinguem ilusão de consciência. Quando estamos iludidos há um mundo do qual escapar. Quando somos conscientes, não há do que escapar.

À luz do Dharma imparcial, os mortais não parecem diferentes dos sábios. Os sutras dizem que o Dharma imparcial é algo que os mortais não podem penetrar e os sábios não podem praticar. O Dharma imparcial é praticado somente por grandes bodhisattvas e budas. Ver a vida como diferente da morte ou o movimento como diferente da imobilidade é ser parcial. Ser imparcial significa ver o sofrimento como não diferente de nirvana, pois a natureza de ambos é o vazio. Imaginando que estão pondo fim ao sofrimento e entrando em nirvana os arhats acabam caindo na armadilha do nirvana. Mas os bodhisattvas sabem que o sofrimento é essencialmente vazio. É por permanecerem no vazio eles permanecem no nirvana. O nirvana significa nem nascimento e nem morte. É além de nascimento e morte e além do nirvana. Quando a mente pára de mover-se ela entra em nirvana. O nirvana é uma mente vazia. Onde não existem ilusões, os budas alcançam o nirvana. Onde não existem aflições, os bodhisattvas entram no local da iluminação (59).

Um lugar desabitado (60) é aquele sem avidez, raiva ou ilusão. A avidez é o reino do desejo, a raiva é o reino da forma e a ilusão é o reino sem forma. Quando um pensamento começa, você entra nos três reinos. Quando um pensamento termina, você deixa os três reinos. O começo ou término dos três reinos, a existência ou não existência de qualquer coisa depende da mente. Isso se aplica a tudo, mesmo a objetos inanimados como pau e pedra.

Quem quer que saiba que a mente é uma ficção desprovida de algo real sabe que sua própria mente não existe nem não existe. Os mortais criam a mente, proclamando que ela existe. E os arhats negam a mente, proclamando que ela não existe. Mas os bodhisattvas e budas nem criam nem negam a mente. A isso se diz que a mente não existe nem não existe. A mente que não existe nem não existe é chamada Caminho do Meio. (61).

Se você usa sua mente para estudar a realidade, você não vai entender nem sua mente nem a realidade. Se você estudar a realidade sem usar sua mente, você entenderá ambas. Aqueles que não entendem, não entendem entender. E aqueles que entendem, entendem o não entender. As pessoas providas da visão verdadeira (62) sabem que a mente é vazia. Elas transcendem tanto o entender e o não entender. A ausência tanto de entendimento como não entendimento é o verdadeiro entendimento.

Vista com a verdadeira visão a forma não é simplesmente forma, pois a forma depende da mente. E a mente não é simplesmente mente, pois a mente depende da forma. Mente e forma criam e negam uma à outra. Aquilo que existe em relação àquilo que não existe. E aquilo que não existe não existe em relação àquilo que existe. Isso é visão verdadeira. Por meios de tal visão nada é visto e nada é não visto. Tal visão alcança totalmente as dez direções sem ver: porque nada é visto; porque não ver é ver; porque ver é não ver. O que os mortais vêm são ilusões. A visão verdadeira é desprendida de ver.

A mente e o mundo são opostos, e a visão nasce onde elas se encontram. Quando sua mente não se revolve internamente, o mundo não desponta exteriormente. Quando o mundo e a mente estão ambos transparentes essa é a verdadeira visão. E tal entendimento é o verdadeiro entendimento.

Nada ver é perceber o caminho, e nada entender é saber o Dharma, pois ver não é ver nem não ver e porque entender não é entender nem não entender. Ver sem ver é visão verdadeira. Entender sem entender é entender verdadeiro.

A verdadeira visão não é somente ver vendo. É também ver não vendo. E o verdadeiro entender não é somente entender o entendimento. É também entender o não entendimento. Se você entende qualquer coisa, você não entende. Somente quando você nada entende é o verdadeiro entender. Entender não é entender nem não entender.

Dizem os sutras: “Não abandonar a sabedoria é estupidez.” Quando a mente não existe, entender e não entender são ambos verdadeiros. Quando a mente existe, entender e não entender são ambos falsos.

Quando você entende, a realidade depende de você. Quando você não entende, você depende da realidade. Quando a realidade depende de você, aquilo que não é real torna-se real. Quando você depende da realidade, aquilo que é real torna-se falso. Quando você depende da realidade, tudo é falso. Quando a realidade depende de você, tudo é verdadeiro. Assim, o sábio não usa sua mente para procurar por realidade, ou realidade para procurar sua mente ou sua mente para procurar sua mente, ou realidade para procurar realidade. Sua mente não desponta realidade. E a realidade não desponta sua mente. E porque tanto sua mente como a realidade estão imóveis, ele está sempre em samadi. (63)

Quando a mente mortal aparece, a budeidade desaparece. Quando a mente mortal desaparece, a budeidade aparece. Quando a mente aparece, a realidade desaparece. Quando a mente desaparece, a realidade aparece. Quem quer que saiba que nada depende de coisa alguma encontrou o Caminho. E quem quer que saiba que a mente de nada depende está sempre no local da iluminação.

Quando você não entende, você está errado. Quando você entende, você não está errado. É porque a natureza do erro é vazia. Quando você não entende, o certo parece errado. Quando você entende, o errado não é errado, pois o erro não existe. Dizem os sutras: “Nada tem uma natureza própria”. Aja. Não faça perguntas. Quando você faz perguntas, você está errado. O erro é resultado de questionamento. Quando você alcança tal entendimento, as más ações de suas vidas passadas são varridas. Quando você está iludido, os seis sentidos e cinco trevas são construções de sofrimento e mortalidade. Quando você desperta, os seis sentidos e cinco trevas (64) são construções de nirvana e imortalidade.

Alguém que procure o caminho não olha além de si. Sabe que a mente é o Caminho. Mas quando acha a mente, nada acha. E quando a pessoa acha o Caminho, nada acha. Se você pensa que você pode usar a mente para achar o caminho, você está iludido. Quando você está iludido, a budeidade existe. Quando você está consciente, ela não existe. É porque a consciência é budeidade.

Se você está procurando pelo caminho, o caminho não aparecerá até que seu corpo desapareça. É como descascar uma árvore. Esse corpo cármico sofre mudanças constantes. Não tem realidade fixa. Pratique de acordo com seus pensamentos. Não odeie a vida e a morte e não ame a vida e a morte. Mantenha cada um de seus pensamentos livre de ilusão, que em vida você testemunhará o início do nirvana (65), e na morte você vai experimentar a garantia de não renascimento. (66)

Ver a forma mas não ser corrompido pela forma e ouvir o som mas não ser corrompido pelo som é liberação. Olhos que não são apegados à forma são os Portais do Zen. Ouvidos que não são apegados ao som são também os Portais do Zen. Resumindo, aqueles que percebem a existência e natureza dos fenômenos e permanecem desapegados são liberados. Aqueles que percebem a aparência externa dos fenômenos estão a sua mercê. Liberação significa não estar sujeito à aflição. Não há outra liberação. Quando você sabe como olhar para a forma, forma não origina a mente e a mente não origina forma. Forma e mente são ambas puras.

Quando as ilusões não estão presentes, a mente é a terra dos budas. Quando as ilusões estão presentes, a mente é o inferno. Os mortais criam ilusões. E através do uso da mente para dar origem à mente eles sempre encontram-se no inferno. Os bodhisattvas vêm através das ilusões. E por não usarem a mente para gerar mente eles sempre encontram-se na terra dos budas. Se você não usa sua mente para criar mente, cada estado da mente é vazio e cada pensamento imóvel. Você vai de uma terra de buda (67) para outra. Se você usa sua mente para criar mente, cada estado da mente está perturbado e cada pensamento está em movimento. Você vai de um inferno para o seguinte. Quando um pensamento nasce, há bom carma e mau carma, céu e inferno. Quando nenhum pensamento nasce, não há bom carma ou mau carma, não há céu ou inferno.

O corpo não existe nem não existe. Portanto, a existência como mortal e a não existência como sábio são concepções com as quais um sábio nada tem a ver. Seu coração é vazio e espaçoso como o céu.

O que se segue é testemunhado no caminho. Está além do alcance de arhats e mortais.

Quando a mente alcança o nirvana, você não vê o nirvana, pois essa mente é o nirvana. Se você vê o nirvana em algum lugar fora da mente, você está iludindo-se.

Cada sofrimento é uma semente de buda, devido ao sofrimento impelir os mortais a buscar a sabedoria. Mas você apenas pode dizer que o sofrimento gera a budeidade. Você não pode dizer que o sofrimento é budeidade. Seu corpo e mente são o solo. O sofrimento é a semente, a sabedoria é o broto e a budeidade o fruto.

O buda está para a mente assim como a fragrância está para a árvore. O buda é proveniente de uma mente livre de sofrimento, tal como uma fragrância provém de uma árvore que não tem podres. Não há fragrância sem a árvore e nenhum buda sem a mente. Se há fragrância sem árvore, é uma fragrância diferente. Se há buda sem sua mente, é um buda diferente.

Quando os três venenos estão presentes em sua mente, você vive numa terra imunda. Quando os três venenos estão ausentes de sua mente, você vive numa terra de pureza. Dizem os sutras: “Se você enche uma terra de impureza e imundície, jamais um buda aparecerá.” Impureza e imundície referem-se à ilusão e outros venenos. Um buda refere-se a uma mente pura e desperta.

Não há linguagem que não seja o Dharma. Falar o dia inteiro sem dizer coisa alguma é o caminho. Ficar silencioso o dia inteiro e ainda dizer algo não é o caminho. Portanto, a fala do tathagata não depende do silêncio, nem o seu silêncio depende da fala, nem sua fala existe em separado de seu silêncio. Aqueles que entendem tanto fala como silêncio estão em samadi. Se você fala quando você sabe, sua fala é livre. Se você fica silencioso quando você não sabe, seu silêncio está amarrado. Se a fala não é apegada às aparências, ela é livre. Se o silêncio é apegado às aparências, está amarrado. A linguagem é essencialmente livre. Nada tem a ver com apego. E o apego nada tem a ver com a linguagem.

A realidade não tem altos e baixos. Se você vê altos e baixos, não é real. Uma balsa (68) não é real. Mas um passageiro da balsa é. Uma pessoa que usa tal balsa pode cruzar aquilo que não é real. É por isso que é real.

De acordo com o mundo existe macho e fêmea, rico e pobre. De acordo com o caminho não há macho e fêmea, não há rico ou pobre. Quando a deusa descobre o caminho, ela não muda de sexo. Quando o garoto apunhalado (69) despertou para a verdade, ele não mudou seu status. Livres de sexo e status, eles compartilham a mesma aparência básica. A deusa não teve sucesso por 12 anos em sua busca por feminilidade. Procurar por 12 anos pela hombridade de alguém seria igualmente infrutífero. Os 12 anos referem-se as 12 entradas (70).

Sem a mente não há buda. Sem o buda não há mente. Da mesma maneira, sem água não há gelo, e sem gelo não há água. Quem quer que fale a respeito de deixar a mente não vai muito longe. Não se apegue às aparências da mente. Dizem os sutras: “Quando você não vê aparências, você vê o buda.” É isso que significa ser livre das aparências da mente.

Sem a mente não há buda significa que o buda vem da mente. A mente gera o buda. Mas embora o buda provenha da mente, a mente não provém de buda, tal como um peixe provém da água, mas a água não provém do peixe. Quem quer que queira ver o peixe vê a água antes de ver o peixe. E quem que queira ver um buda vê a mente antes que veja o buda. Uma vez que você veja o peixe, você esquece-se da água. E uma vez que que você veja o buda, você esquece-se a respeito da mente, a mente confundirá, assim como água o confundirá se você não se esquece a respeito dela.

A mortalidade e a budeidade são como água e gelo. Ser afligido pelos três venenos é mortalidade. Ser purificado pelos três alívios (71) é budeidade. Aquilo que se congela no inverno derrete-se no verão. Elimine o gelo e não há mais água. Livre-se da mortalidade e não há mais budeidade. Claramente, a natureza do gelo é a natureza da água. E a natureza da água é a natureza do gelo. E a natureza da mortalidade é a natureza da budeidade. A mortalidade e a budeidade compartilham a mesma natureza tal como wutou e futzu (72) compartilham a mesma raiz mas não a mesma estação. É somente por causa da ilusão das diferenças que nós temos as palavras mortalidade e budeidade. Quando uma serpente torna-se um dragão ela não muda suas escamas. E quando um mortal torna-se um sábio, ele não muda sua face. Ele conhece sua mente através da sabedoria interna e cuida de seu corpo através da disciplina externa.

Os mortais liberam budas e os budas liberam mortais. Imparcialidade significa isso. Os mortais liberam budas porque a aflição cria consciência. E os budas liberam mortais porque a consciência nega a aflição. Não há como não haver aflição. E não há como não haver consciência. Se não fôssemos pela aflição, nada haveria para criar consciência. Se não fôssemos pela consciência, nada haveria para negar aflição. Quando você está iludido, os budas liberam mortais. Quando você está consciente, os mortais liberam budas. Os budas não se tornam budas por si mesmos. Eles são liberados por mortais. Os budas consideram a ilusão como seu pai e a avidez como sua mãe. Ilusão e avidez são palavras diferentes para mortalidade. A ilusão e a avidez são como a mão esquerda e a mão direita. Não há outra diferença.

Quando você está iludido, você está nesta margem. Quando você está consciente, você está na outra margem. Mas uma vez que você veja que sua mente é vazia e você não veja aparências, você está além da ilusão e consciência. E uma vez que você esteja além da ilusão e consciência, a outra margem não existe. O tathagata não está nesta margem ou na outra margem. Ele não está na correnteza. Os arhats estão na correnteza e os mortais estão nesta margem. Na outra margem está a budeidade.

Os budas têm três corpos (73): um corpo de transformação, um corpo de recompensa e um corpo real. O corpo de transformação é também chamado de o corpo de encarnação. O corpo de transformação aparece quando os mortais fazem boas ações, o corpo de recompensa quando cultivam sabedoria, e o corpo real quando eles ficam conscientes do sublime. O corpo de transformação é aquele que você vê voando em todas as direções resgatando os outros onde quer que eles estejam. O corpo de recompensa põe fim às dúvidas. A frase “a grande iluminação ocorreu nos Himalaias” (74) repentinamente torna-se verdadeira. O corpo real não faz ou diz coisa alguma. Permanece perfeitamente imóvel. Na verdade, não há sequer um corpo de buda, muito menos três. Essa conversa de três corpos é baseada simplesmente no entendimento humano, o qual pode ser oco, moderado ou profundo.

As pessoas de entendimento oco imaginam que elas estão acumulando bênçãos e confundem o corpo de transformação como sendo buda. As pessoas de entendimento moderado imaginam que elas estão pondo fim ao sofrimento e confundem o corpo de recompensa como sendo buda. E as pessoas de entendimento profundo imaginam que elas estão experimentando a budeidade e confundem o corpo real de buda com o buda. Mas as pessoas com o entendimento mais profundo olham dentro, não se distraindo. Uma vez que uma mente clara é o buda, elas atingem o entendimento de um buda sem usar a mente. Os três corpos, como todas as outras coisa, são inatingíveis e indescritíveis. A mente desimpedida alcança o Caminho. Dizem os sutras: “Os budas não rezam o Dharma. Eles não liberam mortais. Eles não experimentam a budeidade.” É isso que eu quero dizer.

Os indivíduos criam carma. O carma não cria indivíduos. Eles criam carma nesta vida e recebem sua recompensa na próxima. Eles nunca escapam. Somente alguém que seja perfeito não cria carma nessa vida e não recebe recompensa. Dizem os sutras: “Quem não cria carma obtém o Dharma.” Este não é um dito vazio. Você pode criar carma, mas você não pode criar uma pessoa. Quando você cria carma, você renasce junto com seu carma. Quando você não cria carma, você desaparece juntamente com seu carma. Portanto, como o carma dependente do indivíduo e o indivíduo dependente do carma, se o indivíduo não cria carma, o carma não adere nele. Da mesma maneira, “Uma pessoa pode ampliar o caminho. O caminho não pode ampliar uma pessoa.” (75)

Os mortais continuam criando carma e erradamente insistem que não há retribuição. Mas podem eles negar o sofrimento? Podem eles negar que o que o presente estado da mente semeia o próximo estado da mente colhe? Como elas podem escapar? Mas se o presente estado da mente nada semeia, o próximo estado da mente nada colhe. Não faça concepções erradas.

Dizem os sutras: “Apesar de acreditar nos budas, as pessoas que imaginam que os budas praticam austeridades não são budistas. O mesmo aplica-se àqueles que imaginam que os budas são sujeitos a recompensas de riqueza ou pobreza. Eles são icchantikas. Eles são incapazes de acreditar.”

Quem entende os ensinamentos dos sábios é um sábio. Quem entende os ensinamentos dos mortais é um mortal. Um mortal que possa desistir do ensinamento dos mortais e seguir os ensinamentos dos sábios torna-se um sábio. Mas os tolos deste mundo preferem procurar por sábios lá longe. Eles não acreditam que a sabedoria de suas próprias mentes é o sábio. Dizem os sutras: “Não recite este sutra em meio a homens de nenhum entendimento.” E dizem os sutras: “A mente é o ensinamento.” Mas as pessoas de nenhum entendimento não acreditam nas suas próprias mentes nem que entendendo esse ensinamento elas podem tornarem-se sábias. Elas preferem procurar conhecimento distante e esperar por coisas no espaço, imagens de buda, luz, incenso e cores. Elas caem na reza para a falsidade e perdem suas mentes na insanidade.

Dizem os sutras: “Quando você vê que todas as aparências são nenhuma aparência, você vê o tathagata.” A miríade de portas para a verdade provêem todas da mente. Quando as aparências da mente são tão transparentes como o espaço, elas se vão.

Nossos sofrimentos sem fim são as raízes da doença. Quando os mortais estão vivos, preocupam-se com a morte. Quando estão satisfeitos, preocupam-se com a fome. Sua é a Grande Incerteza. Mas os sábios não levam em consideração o passado. E eles não se preocupam com o futuro. Nem eles se aderem ao presente. E de momento a momento eles seguem o Caminho. Se você não despertou para esta grande verdade, você faria melhor procurando um professor na terra ou nos céus. Não complique sua própria deficiência.

SERMÃO DA GRANDE DESCOBERTA

Se alguém está determinado a alcançar a iluminação, qual o método mais essencial a ser praticado?

O método mais essencial, o qual inclui todos os outros métodos, é contemplar a mente.

Mas como pode um método incluir a todos os outros?

A mente é a raiz da qual todas as coisas crescem. Se você pode entender a mente, tudo o mais está incluído. É como a raiz de uma árvore. Todas as frutas e flores de uma árvore, galhos e folhas dependem desta raiz. Se você alimenta a raiz da árvore, a árvore multiplica-se. Se você corta a raiz da árvore, ela morre. Aqueles que entendem a mente alcançam a iluminação com esforço mínimo. Aqueles que não entendem a mente praticam em vão. Todas as coisas boas e más vêem de sua própria mente. Achar algo além da mente é impossível.

Mas como pode contemplar a mente ser chamado de entendimento?

Quando um grande bodhisattva penetra profundamente na sabedoria perfeita (76), ele imagina que os quatro elementos e cinco trevas são destituídos de natureza própria. E ele percebe que a atividade de sua mente tem dois aspectos: puro e impuro (77). Por sua verdadeira natureza, esses dois estados mentais estão sempre presentes. Eles alternam-se como causa ou efeito dependendo das condições, a mente pura deliciando-se em bons atos, a mente impura pensando no mal. Aqueles que não são afetados pela impureza são sábios. Eles transcendem o sofrimento e experimentam a felicidade do nirvana. Todos os outros, enganados pela mente impura e enredados pelo seu própria carma, são mortais. Eles deixam-se levar através dos três reinos e sofrem incontáveis aflições, e tudo porque suas mentes impuras obscurecem seu eu verdadeiro.

O Sutra da Dez Etapas diz: “No corpo dos mortais está a natureza de buda indestrutível. Como o Sol, sua luz preenche o espaço sem fim. Mas uma vez ocultado pelas nuvens escuras das cinco trevas, é como a luz dentro de um jarro, escondido da vista. E o Sutra do Nirvana (78) diz: “Todos os mortais têm natureza de buda. Mas ela está encoberta pela escuridão da qual não podem esquecer. Nossa natureza de buda é consciência: estar consciente e fazer os outros conscientes. Perceber a consciência é liberação “Tudo que é bom tem consciência por raiz. E desta raiz de consciência cresce a árvore de todas as virtudes e o fruto do nirvana. Contemplar a mente assim é entender.

O Senhor diz que nossa verdadeira natureza de buda e todas as virtudes têm consciência como raiz. Mas qual é a raiz da ignorância?

A mente ignorante, com suas infinitas aflições, paixões e males, é enraizada nos três venenos: avidez, raiva e ilusão. Esses três estados da mente venenosos por si mesmos incluem inúmeros males, como árvores que têm um único tronco mas inúmeros galhos e folhas. Cada veneno produz tantos milhões de males que o exemplo da árvore mal é uma comparação apropriada.

Os três venenos estão presentes em nossos seis órgãos (79) dos sentidos como seis tipos de consciência (80), ou ladrões. São chamados de ladrões porque entram e saem pelos portais dos sentidos, cobiçam possessões sem limites, enredam-se no mal, e mascaram sua verdadeira identidade. E porque os mortais são desencaminhados em corpo e mente por esses venenos ou ladrões, eles ficam perdidos na vida e na morte, perambulam pelos seis estados da existência (81), e sofrem inúmeras aflições. Essas aflições são como rios que correm por mil quilômetros devido ao constante fluxo de pequenas fontes. Mas se alguém corta sua fonte, o rio seca. E se alguém que procura a liberação pode transformar os três venenos nos três conjuntos de preceitos e os seis ladrões nos seis paramitas, livra-se das aflições de uma vez.

Mas os três reinos e os seis estados da existência são infinitamente vastos. Como podemos escapar de suas infindáveis aflições se tudo que fizermos for contemplar a mente?

O carma dos três reinos vem da mente somente. Se sua mente não está dentro dos três reinos, ela está além deles. Os três reinos correspondem aos três venenos: a avidez corresponde ao reino do desejo, a raiva ao reino da forma e a ilusão ao reino sem forma. E porque o carma criado pelos venenos pode ser leve ou pesado, esses três reinos são mais tarde divididos em seis lugares conhecidos como seis estados da existência.

E como o carma desses seis difere?

Os mortais que não entendem a prática verdadeira e cegamente fazem boas ações nascem nos três estados de existência dentro dos três reinos. E o que são esses três estados mais altos? Aqueles que cegamente executam as dez boas ações (83) e tolamente buscam felicidade nascem como deuses no reino do desejo. Aqueles que cegamente observam os cinco preceitos e tolamente amam e odeiam nascem como homens no reino da raiva. E aqueles que cegamente atêm-se ao mundo fenomenal, acreditam em falsas doutrinas e rezam por bênçãos nascem como demônios no reino da ilusão. Esses são os três estados mais altos da existência.

E quais são os três estados mais baixos? Eles estão onde nascem aqueles que persistem em pensamentos envenenados e más ações. Aqueles cujo carma para avidez é maior tornam-se fantasmas famintos. Aqueles cujo carma para raiva é maior tornam-se sofredores no inferno. E aqueles cujo carma para ilusão é maior tornam-se bestas. Esses três estados mais baixos juntos com os três estados mais altos anteriores formam os seis estados da existência. Com isso você deveria perceber que todo o carma, doloroso ou não, vem de sua própria mente. Se você puder concentrar sua mente apenas e transcender sua falsidade e maldade, o sofrimento dos três reinos e seis estados de consciência automaticamente desaparecerão. E uma vez livre do sofrimento, você está verdadeiramente livre.

Mas Buda disse: “Apenas após sofrer inumeráveis sofrimentos por três asankhya kalpas (85) eu atingi a iluminação. “Por que o Senhor diz que simplesmente observando a mente e superando os três venenos está a liberação?

As palavras de Buda são verdadeiras. Mas os três asankhya kalpas referem-se aos três estados da mente envenenados. O que chamamos de asankhya em sânscrito você chama de inumeráveis. Dentre esses três estados envenenados da mente estão inúmeros maus pensamentos. E cada pensamento dura um kalpa. Tal infinitude é o que Buda referiu-se como os três asankhya kalpas.

Uma vez que seu eu verdadeiro obscurece-se com os três venenos, como você poderia ser chamado de liberado até que você supere seus inúmeros maus pensamentos? Dizem que as pessoas que podem transformar os três venenos da avidez, raiva e ilusão nas três liberações passam através dos três asankhya kalpas. Mas as pessoas dessa idade final (86) são as mais estúpidas das tolas. Elas não entendem o que o Tathagata realmente quis dizer com os três asankhya kalpas. Elas dizem que a iluminação é atingida somente após kalpas sem fim e assim fazem discípulos abandonarem o caminho da budeidade.

Mas os grandes bodhisattvas atingiram a iluminação apenas observando os três conjuntos de preceitos (87) e praticando os seis paramitas. Agora você meramente diz aos discípulos para observarem a mente. Como pode alguém atingir a iluminação sem cultivar as regras de disciplina?

Os três conjuntos de preceitos são para superar os três estados envenenados da mente. Quando você supera esses três venenos, você cria três conjuntos de ilimitada virtude. Um conjunto põe as coisas juntas – nesse caso, um número ilimitado de bons pensamentos por toda a mente. E os seis paramitas são para purificar os seis sentidos. O que nós chamamos de paramitas você chama de meio de transporte para a outra margem (88). Pela purificação de seus seis sentidos da poeira da sensação, os paramitas transportam você através do Rio das Aflições para a Margem da Iluminação.

De acordo com os sutras, os três conjuntos de preceitos são: “Prometo terminar com todo o mal. Prometo cultivar todas as virtudes. E prometo liberar todos os seres.” Mas agora o Senhor diz que eles existem apenas para controlar os três estados envenenados da mente. Não é o contrário do significado das escrituras?

Os sutras do buda são verdadeiros. Mas há muito tempo, quando aquele grande bodhisattva estava cultivando a semente da iluminação, foi para opor-se aos três venenos que ele fez esses três votos. Praticando proibições morais para opor-se ao veneno da avidez, ele prometeu terminar com todos os males. Praticando meditação para opor-se ao veneno da raiva, ele prometeu cultivar todas as virtudes. E praticando a sabedoria para opor-se ao veneno da ilusão, ele prometeu liberar a todos os seres. Porque ele perseverou nessas três práticas puras de moralidade, meditação e sabedoria, ele foi capaz de superar os três venenos e alcançar a iluminação. Superando os três venenos varreu tudo que é pecaminoso e assim terminou com o mal. Observando os três conjuntos de preceitos ele nada fez além do bem e assim cultivou a virtude. E pondo um fim ao mal e cultivando a virtude ele realizou todas as práticas, beneficiou a si mesmo bem como aos outros, e resgatou mortais em todos os lugares. Assim ele liberou seres.

Você deveria perceber que a prática que você cultua não existe separadamente de sua mente. Se sua mente é pura, todas as terras de buda são puras. Dizem os sutras: “Se suas mentes são impuras, os seres são impuros. Se suas mentes são puras, os seres são puros.” E “Para alcançar uma terra de buda, purifique sua mente. Uma vez que sua mente torne-se pura, as terras-de-buda tornam-se puras” Assim, superando os três estados venenosos da mente os três conjuntos de preceitos estão automaticamente satisfeitos.

Mas os sutras dizem que os seis paramitas são caridade, moralidade, paciência, devoção, meditação e sabedoria. Agora o Senhor diz que os paramitas referem-se à purificação dos sentidos. O que o Senhor quer dizer com isso? E por que eles são chamados de balsas?

Cultivar os paramitas significa purificar os seis sentidos superando os seis ladrões. Abandonar o ladrão do olho abandonando o mundo visual é caridade. Não deixar entrar o ladrão do ouvido não ouvindo os sons é moralidade. Empobrecer o ladrão do nariz igualando todos os odores como neutros é paciência. Controlar o ladrão da boca conquistando os desejos de sabor, elogio e explicação é devoção. Reprimir o ladrão do corpo ficando imóvel nas sensações de toque é meditação. E domar o ladrão da mente não cedendo às ilusões, mas praticando consciência é sabedoria. Esses seis paramitas são os transportes. Tais como botes ou jangadas, eles transportam seres parra a outra margem Portanto, eles são chamados de balsas.

Mas quando Shakyamuni era um bodhisattva, ele consumiu três tigelas de leite e seis conchas de mingau (89) antes de atingir a iluminação. Se ele tinha que beber leite antes de poder saborear o fruto da budeidade, como pode meramente contemplar a mente resultar em liberação?

O que você diz é verdadeiro. Foi como ele atingiu a iluminação. Ele teve que beber leite antes de poder torna-se um buda. Mas há dois tipos de leite. Aquele que Shakyamuni bebeu não era leite impuro comum mas o leite do puro Dharma. As três tigelas eram os três conjuntos de preceitos. E as seis conchas eram os seis paramitas. Quando Shakyamuni atingiu a iluminação, foi porque ele bebeu esse puro leite do Dharma que ele saboreou o fruto da budeidade.

Dizer que o Tathagata bebeu a mistura mundana de leite malcheiroso de vaca é calúnia. Aquilo que é verdadeiro, indestrutível, o eu dármico livre de paixões, permanece livre das aflições do mundo. Por que ele necessitaria do leite impuro para satisfazer sua fome e sede?

Dizem os sutras: “Esse boi não vive nas montanhas ou nos vales. Ele não come grãos ou restos de grãos. E ele não pasta com vacas. O corpo desse boi é da cor do ouro polido.” O touro refere-se a Vairocana (90). Devido à sua grande compaixão por todos os seres, ele produz dentro de seu corpo de Dharma puro o leite de Dharma sublime dos três conjuntos de preceitos e dos seis paramitas para alimentar todos aqueles que procuram liberação. O leite puro desse verdadeiramente puro boi não somente habilita o Tathagata a atingir a budeidade, mas também capacita qualquer ser que o bebe a atingir a insuperável iluminação completa.

Nos sutras inteiros Buda diz para os mortais que eles podem atingir a iluminação fazendo trabalhos meritórios tais como construção de mosteiros, fundição de estátuas, queimar incenso, distribuição de flores, acender lâmpadas eternas, prática nos seis períodos (91) do dia e noite, caminhar ao redor de stupas (92), jejum e adoração. Mas se contemplar a mente inclui todas as outras práticas, então tais trabalhos parecem redundantes.

Os sutras de Buda contêm inumeráveis metáforas. Devido ao fato dos mortais terem mentes superficiais e não entenderem coisa alguma profundamente, Buda usou o tangível para representar o sublime. As pessoas que buscam bênçãos concentrando-se em trabalhos externos em vez de cultivo interno estão tentando o impossível.

O que vocês chamam de mosteiro nós chamamos de sangharama, um local de pureza. Mas quem quer que negue entrada aos três venenos e mantém as portas de seus sentidos puras, corpo e mentes calmos, interior e exterior limpos, constrói um mosteiro.

Fundir estátuas refere-se a todas as práticas cultivadas por aqueles que buscam a iluminação. A forma sublime do Tathagata não pode ser representada em metal. Aqueles que buscam a iluminação consideram seus corpos como fornalhas, o Dharma como o fogo, a sabedoria como o ofício e os três conjuntos de preceitos e seis paramitas como o molde. Eles fundem e refinam a verdadeira natureza búdica dentro de si e derramam-na dentro do molde formado pelas regras da disciplina. Atuando perfeitamente de acordo com o ensinamento de Buda eles naturalmente criam uma semelhança perfeita. O corpo sublime e eterno não está sujeito às condições ou decadência. Se você procura a Verdade mas não aprende a fazer uma semelhança verdadeira, o que você usará no lugar?

E queimar incenso não significa incenso material comum mas o incenso do Dharma intangível, que leva embora a impureza, a ignorância e ações más com seu perfume. Existem cinco tipos de tal incenso dármico (93). Primeiramente vem o incenso da moralidade, que significa renunciar ao mal e cultivar a virtude. Em segundo lugar vem o incenso da meditação, que significa acreditar profundamente no Mahayana com determinação. Em terceiro está o incenso da sabedoria, que significa contemplar o corpo e a mente, interna e externamente. Em quarto está o incenso da liberdade, que significa romper os grilhões da ignorância. E em quinto está o incenso do conhecimento perfeito, que significa estar sempre consciente e não obstruído. Esses cinco são os tipos de incenso mais preciosos e eles são muito superiores a qualquer coisa que o mundo tenha a oferecer.

Quando Buda estava no mundo, ele disse aos seus discípulos para acender tais incensos preciosos com o fogo da consciência como uma oferenda aos budas das dez direções. Mas hoje as pessoas não entendem o significado verdadeiro do Tathagata. Elas usam uma chama ordinária para acender incenso material de sândalo e rezam por uma bênção futura que nunca vem.`

Acontece o mesmo com a distribuição de flores. Refere-se à falar o Dharma, espalhar flores de virtude, com o objetivo de beneficiar os outros e glorificar o eu verdadeiro. Essas flores da virtude são aquelas louvadas por Buda. Elas duram para sempre e nunca murcham. E quem quer que espalhe tais flores colhe bênçãos infinitas. Se você pensa que o Tathagata disse para as pessoas fazer mal às plantas decepando suas flores, você está errado. Aqueles que observam os preceitos não machucam qualquer uma das miríades de formas do céu e da terra. Se você machucar algo por engano, você sofre por isso. Mas aqueles que intencionalmente quebram os preceitos machucando a vida pelo desejo ou bênçãos futuras sofrem ainda mais. Como poderiam eles permitir bênçãos futuras virar sofrimentos?

A lâmpada eterna representa consciência perfeita. Comparando a iluminação da consciência com a luz de uma lâmpada, aqueles que buscam a liberação vêm seus corpos como a lâmpada, suas mentes como seu pavio, a adição de disciplina como o seu óleo, e o poder da sabedoria como sua chama. Acendendo essa lâmpada de perfeita consciência elas dissipam toda escuridão e ilusão. E passando esse Dharma para os outros eles são capazes de usar uma lâmpada para acender milhares de lâmpadas. E porque essas lâmpadas da mesma maneira acendem milhares de outras lâmpadas, sua luz dura para sempre.

Há muito tempo havia um buda chamado Dipamkara (94), ou “Acendedor de Lâmpadas”. Esse era o significado de seu nome. Mas os tolos não entendem as metáforas do Tathagata. Persistindo na ilusão e apegando-se ao tangível, eles acendem lâmpadas de óleo vegetal comum e pensam que iluminando o interior de prédios elas estão seguindo o ensinamento de Buda. Que tolice! A luz emitida por um buda pela espiral entre suas sobrancelhas pode iluminar inúmeros mundos. Lâmpada de óleo não ajuda. Ou você pensa de outra maneira?

Praticar todos os seis períodos do dia e da noite significa constantemente cultivar a iluminação entre os seis sentidos e perseverar em cada forma de consciência. Nunca relaxar o controle sobre os seis sentidos é o que significam os seis períodos.

Por caminhar ao redor de stupas, entenda-se que a stupa é seu corpo e mente. Quando sua consciência circunda seu corpo e mente sem parar, diz-se “caminhar ao redor de uma stupa”. Os sábios de outrora seguiam esse caminho para nirvana. Mas hoje as pessoas não entendem o que isso significa. Em vez de olhar dentro elas insistem em olhar fora. Elas usam seu corpo físico para caminhar ao redor de stupas físicas. E elas ficam nessa dia e noite, ficando exaustas em vão e não se aproximando de seu verdadeiro eu.

O mesmo acontece observando um jejum. É inútil a menos que você entenda o que realmente significa. O jejum significa regular, regular seu corpo e mente de maneira que eles não sejam distraídos ou perturbados. E observar significa manter, manter as regra de disciplina de acordo com o Dharma. Jejuar significa resguardar-se das seis atrações (96) externas e dos três venenos internos e esforçar-se com muita contemplação para purificar seu corpo e mente.

Jejuar também inclui cinco tipos de comida. Primeiramente há o deleite com o Dharma. Esse é o deleite que vem de agir de acordo com o Dharma. Em segundo está a harmonia na meditação. Essa é a harmonia do corpo e mente que vem de ver através de sujeito e objeto. Em terceiro está invocar, invocar budas tanto com a sua boca e mente. Em quarto está a determinação, determinação de buscar a virtude tanto caminhando, de pé, sentado ou deitado. E em quinto está a liberação, liberação de sua mente de contaminação mundana. Esses cinco são os alimentos do jejum. Exceto uma pessoa coma esses cinco alimentos puros, ela está errada ao pensar que está jejuando.

Além disso, ao parar de comer o alimento da ilusão, se você a toca novamente você quebra o seu jejum. E uma vez que você o quebre você não colhe bênçãos do jejum. O mundo está cheio de pessoas iludidas que não vêem isso. Elas permitem ao seus corpos e mentes todos os tipos de males. Elas não refreiam suas paixões e não têm vergonha. E quando eles param de comer comida comum, elas chamam isso de jejum. Que absurdo!

É o mesmo com a adoração. Você tem que entender o significado e adaptar-se às condições. O significado inclui ação e não-ação. Quem quer que entenda isso segue o Dharma.

Adorar significa reverência e humildade. Significa reverenciar seu eu verdadeiro e atenuar as ilusões. Se você pode acabar totalmente com os desejos e pode acalentar bons pensamentos, mesmo que não demonstre, isso é adoração. Tal forma é a forma verdadeira.

O Senhor Buda (97) quis que as pessoas mundanas entendessem a adoração como exprimir humildade e dominar a mente. Então ele as disse para prostrarem seus corpos para demonstrar sua reverência, para deixar o externo expressar o interno, para harmonizar essência e forma. Aqueles que falham no cultivo do significado interno, em vez disso concentrando-se na expressão externa, nunca param de entregarem-se para a ignorância, ódio e ao mal, exaurindo-se em vão. Eles podem enganar aos outros com posturas, não se envergonham diante de sábios e são vaidosos diante dos mortais, mas eles nuca escaparão da Roda, muito menos atingirão algum mérito.

Mas o Sutra da Casa de Banho (98) diz que “contribuindo para o banho de monges, as pessoas recebem bênçãos ilimitadas.” Isso pareceria um exemplo de prática externa fazendo méritos. Como isso relaciona-se com contemplar a mente?

Aqui, o banhar dos monges não se refere ao lavar de qualquer coisa tangível. Quando o Senhor Buda pregou o Sutra da Casa de Banho ele queria que seus discípulos lembrassem do Dharma de lavar. Então ele usou uma idéia do dia a dia para exprimir seu significado real, que está expresso em sua explicação de mérito das sete oferendas. Dessas sete, a primeira é água pura, a segunda fogo, a terceira sabão, a quarta amentilho de salgueiro, a quinta cinzas puras, a sexta perfumaria, e a sétima roupas de baixo (99). Ele usou essas sete para representar sete outras coisas que limpam e realçam uma pessoa pela eliminação da ilusão e impureza de uma mente envenenada.

A primeira dessas sete coisas é a moralidade, que lava o excesso tal como a água pura lava a impureza. Em segundo está a sabedoria, que penetra sujeito e objeto, tal como o fogo esquenta a água. Em terceiro está a discriminação, que livra das práticas más, tal como o sabão livra do encardido. Em quarto está a honestidade, que depura as ilusões, tal como mascar amentilho de salgueiro purifica o hálito. Em quinto está a fé pura, que resolve todas as dúvidas, tal como esfregar cinzas puras no corpo previne enfermidades. Em sexto está a paciência, que vence a resistência e desgraça, tal como perfumarias amaciam a pele. E em sétimo está a vergonha, que remedia más ações, tal como a roupa de baixo encobre um corpo feio. Essas sete coisas representam o significado real do sutra. Quando ele proclamou esse sutra, o Tathagata estava falando com seguidores do Mahayana prevenidos, e não para gente bitolada de visão obscurecida. Não é de se surpreender que as pessoas de hoje não entendam.

A casa de banho é o corpo. Quando você acende a luz da sabedoria, você aquece a água pura dos preceitos e banha a verdadeira natureza búdica dentro de você. Mantendo essas sete práticas você aumenta sua virtude. Os monges daquela época tinham sensibilidade. Eles entendiam Buda. Eles seguiam seu ensinamento, aperfeiçoaram sua virtude, e experimentaram o fruto da budeidade. Mas atualmente as pessoas não podem compreender essas coisas. Elas usam água comum para lavar um corpo físico e pensam que estão seguindo ao sutra. Mas elas estão erradas.

Nossa natureza búdica verdadeira não tem forma. E a poeira da aflição não tem forma. Como podem as pessoas usar água comum para lavar um corpo intangível? Não funciona. Quando elas despertarão? Para limpar tal corpo você deve contemplá-lo. Uma vez que as impurezas provêem do desejo, elas multiplicam-se até que elas lhe cubram interna e externamente. Mas se você tenta lavar esse seu corpo, você vai ter que esfregar até que ele esteja quase acabado para ficar limpo. Disso você deveria imaginar que lavar algo externo não é o que Buda quis dizer.

Dizem os sutras que alguém que invoque um Buda de todo o coração certamente renascerá no paraíso oriental (100). Uma vez que essa porta leva à budeidade, por que procurar liberação em contemplação da mente?

Se você invocar um buda, você tem que fazer isso direito. Exceto você entenda o que significa invocar, você está fazendo isso erradamente. E se você faz isso erradamente, você nunca irá a parte alguma.

Buda significa consciência, a consciência de corpo e mente que evita o mal aparecer. E invocar significa ter em mente, ter constantemente em mente as regras de disciplina e seguí-las com toda a sua vontade. É isso que significa invocar. Invocar tem a ver com pensamento e não com linguagem. Se você usa uma rede para pescar, uma vez que você já pescou você pode esquecer a rede. E se você usa a linguagem para achar significado, uma vez encontrado o significado você pode esquecer a linguagem.

Para invocar o nome de Buda você tem que entender o Dharma de invocar. Se não está presente em sua mente, sua boca canta um nome vazio. Uma vez que você está perturbado pelos três venenos ou por pensamentos pessoais, sua mente iludida não vai lhe permitir de ver Buda e você vai apenas desperdiçar seu esforço. Cantar e invocar são mundos distintos. Canta-se com a boca. Invoca-se com a mente. E por que invocar vem da mente, chama-se porta da consciência. O canto é centrado na boca e aparece como som. Se você atem-se às aparências enquanto procura o significado, você não vai achar coisa alguma. Assim, os sábios do passado cultivavam introspeção e não a fala.

Essa mente é a fonte de todas as virtudes. E essa mente chefia todos os poderes. A eterna felicidade de nirvana vem da mente em descanso. O renascimento nos três reinos também provém da mente. A mente é a porta para cada mundo e a mente é o vau para a outra margem. Aqueles que sabem onde a porta está não se preocupam em alcançá-la. Aqueles que sabem onde o vau está não se preocupam em atravessá-lo.

As pessoas que encontro atualmente são superficiais. Elas pensam no mérito como algo que tenha forma. Elas desperdiçam sua saúde e carneiam criaturas da terra e do mar. Elas tolamente preocupam-se consigo mesmas através de estátuas e stupas, dizendo para as pessoas empilhar tábuas e tijolos, pintar isso de azul e aquilo de verde. Eles forçam seus corpos e mentes, machucam-se e desencaminham os outros. E eles não sabem o suficiente para envergonharem-se. Como que algum dia iluminar-se-ão? Eles vêm algo tangível e instantaneamente apegam-se. Se você lhes fala a respeito de não-forma, eles ficam lá confusos e imbecis. Ávidos pelas pequenas bênçãos, eles ficam cegos para o grande sofrimento futuro. Tais discípulos ficam exaustos em vão. Indo do verdadeiro para o falso, só falam de bênçãos futuras.

Se você pode simplesmente concentrar a luz interna de sua mente e contemplar sua iluminação mais externa, você vai dispersar os três venenos e manter afastados os três ladrões de uma vez por todas. E sem esforço você vai ganhar posse de um número infinito de virtudes, perfeições e portas para a verdade. Ver através do mundano e testemunhar o sublime está a menos do que uma piscada. A realização é agora. Por que preocupar-se com cabelo grisalho? Mas a porta verdadeira está escondida e não pode ser revelada. Apenas mencionei contemplar a mente.

Glossário e notas

  1. Caminho. Quando o budismo foi para a China, a palavra tao era usada para traduzir Dharma e Bodhi. A causa parcial era que o budismo era visto como uma versão estrangeira do taoismo. Em seu “Sermão do Ciclo da Vida”, Bodhidharma diz: “O Caminho é zen”.
  2. Parede. Depois de chegar à China, Bodhidharma passou nove anos em meditação em frente à parede de uma caverna próxima ao Templo de Shaolin. A parede de vazio de Bodhidharma liga todos os opostos, incluindo eu e o outro, mortal e sábio.
  3. Quatro práticas. São uma variação das quatro nobres verdades: toda existência é marcada por sofrimento; o sofrimento tem uma causa; a causa pode terminar; e o caminho para terminá-la é o óctuplo caminho da visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, devoção correta, atenção correta e zen correto.
  4. Calamidade e Prosperidade. Duas deusas, responsáveis por má e boa sorte, respectivamente. Elas aparecem no capítulo doze do Sutra do Nirvana.
  5. Três reinos. O equivalente psicológico budista do mundo cosmológico triplo bramânico de bhur, bhuvah e svar, ou terra, atmosfera e céu. O mundo triplo budista inclui kamadhatu, ou o reino do desejo – os infernos, os quatro continentes do mundo humano e animal, e os seis paraísos do prazer; rupadhatu, ou o reino da forma – os quatro paraísos da meditação; e arupadhatu, imateriais. Juntos, os três reinos constituem os limites da existência. No capítulo três do Sutra do Lótus os três reinos são representados como uma casa em chamas.
  6. Dharma. A palavra sânscrita Dharma vem de dhri, que significa pegar, e refere-se a qualquer coisa que precisa ser “pegue” para ser real, tanto num sentido provisório como derradeiro. Portanto, a palavra pode significar coisa, ensinamento ou realidade.
  7. Seis virtudes. Os paramitas, ou meios de transporte para a outra margem: caridade, moralidade, paciência, devoção, meditação, e sabedoria. Todos os seis devem ser praticados com desapego dos conceitos de atuante, ação e beneficiário
  8. Mente. Um verso do Avatamsaka Sutra é parafraseado aqui: “Os três reinos são só uma mente”. O Sexto Patriarca zen, Hui-Neng, distingue mente como o reino e natureza como o senhor.
  9. Budas. O budismo não se limita a um buda. Ele reconhece incontáveis budas. Além disso, todos têm a natureza de buda. Há um buda em cada mundo, assim como há consciência em cada pensamento. A única qualificação necessária para a budeidade é consciência completa.
  10. Sem definições. A ausência de definições na transmissão do Dharma é um critério do zen budismo. Não necessariamente significa sem palavras, mas sem restrições ao modo de transmissão. Um gesto é tão bom como um discurso.
  11. Kalpa. O período entre a criação e a destruição do mundo, um eon.
  12. Essa mente é o buda. É budismo Mahayana em poucas palavras. Uma vez um monge perguntou a Ameixa Grande o que Matsu lhe ensinou. Ameixa Grande disse “Essa mente é o buda.” O monge respondeu: Atualmente Matsu ensina Aquilo que não é a mente não é o buda. A isso Ameixa Grande respondeu: “Deixe-o fazer Aquilo que não é a mente não é o buda. Vou bater em Essa mente é o buda.” Quando ele ouviu essa história, Matsu disse: “A ameixa está madura.” (Transmissão da Lâmpada, Capítulo 7).
  13. Iluminação. Bodi. Diz-se que a mente livre de ilusão é cheia de luz, como a Lua quando não é obscurecida por nuvens. Em vez de sofrer outro renascimento, a pessoa iluminada atinge o nirvana, porque a iluminação põe fim ao carma. A faculdade de ouvir é mais primitiva, mas a visão é a contumaz fonte de sabedoria acerca de realidade; daí o uso de metáforas visuais. Os sutras também falam de mundos nos quais os budas ensinam através do olfato.
  14. Nirvana. Os tradutores chineses antigos tentaram umas 40 palavras chinesas antes de desistirem e simplesmente fazer a transcrição desta palavra sânscrita, a qual significa ausência de respiração. É também definida como somente calma. Muitas pessoas igualam-no à morte, mas para os budistas o nirvana significa ausência do significado dialético da respiração. De acordo com Nagarjuna: “Aquilo que é, quando sujeito ao carma, samsara, é, quando não mais sujeito ao carma, nirvana.”(Madhyamika Shastra, Capítulo 25, verso 9).
  15. Natureza própria. Svabhava. Aquilo que é de si próprio. A natureza própria de nada depende, tanto causal, temporal ou espacialmente. A natureza própria não tem aparência. Seu corpo é corpo nenhum. Não é um tipo de ego, e não é algum tipo de substrato ou característica que exista dentro ou fora dos fenômenos. A natureza própria é vazia de todas as características, incluindo o vazio, mas ainda define a realidade.
  16. Invocar budas. Invocar inclui tanto visualização de um buda como repetição de um nome de buda. O objeto usual de tal devoção é Amithaba, Buda do Infinito. Invocar de todo coração Amithaba assegura aos devotos renascer no Paraíso Oriental, onde a iluminação é dita ser muito mais fácil atingir do que nesse mundo.
  17. Sutra. Significa soar, um sutra faz soar juntas as palavras de um buda.
  18. Preceitos. A prática budista de moralidade inclui um número de proibições: usualmente cinco para leigos, aproximadamente 250 para monges e de 350 a 500 para monjas.
  19. Ver sua natureza. Chamada de natureza própria, natureza de buda ou natureza do Dharma, nossa natureza é nosso corpo verdadeiro. É também nosso falso corpo. Nosso corpo verdadeiro não é sujeito a nascimento ou morte, aparecimento ou desaparecimento, mas o nosso corpo falso está num estado de constante mudança. Vendo nossa natureza, nossa natureza vê a si mesma, porque a ilusão e a consciência não são diferentes. Para uma exposição sobre isso em português, veja o livro de D.T. Suzuki A Doutrina Zen da Não-Mente.
  20. Vida e morte. Shakyamuni deixou o lar para achar uma saída do ciclo interminável de vida e morte. Todos que seguem Buda devem fazer o mesmo. Quando chegou o momento de transmitir o robe e a tigela da linhagem zen, Hui-jin, o Quinto Patriarca zen, reuniu seus discípulos e disse-lhes: “Nada é mais importante que vida e morte. Mas em vez de procurar uma saída para o Oceano de Vida e Morte, vocês passam todo o seu tempo procurando maneiras de acumular méritos. Se vocês são cegos para sua própria natureza, para que serve o mérito? Usem sua sabedoria, a prajna natureza de suas próprias mentes. De todo o seu ser, vão escrever um poema”. (Sutra do Sexto Patriarca, Capítulo 1).
  21. Sutra Desdobrado em Doze. As doze divisões das escrituras reconhecidas pelo budismo Mahayana. Essas divisões, que são feitas para separar objetos diferentes e formas literárias, incluem sutras, sermões de Buda; geyas, repetições em versos dos sutras; gathas, cânticos e poemas; nidanas, narrativas históricas; jatacas, histórias de budas anteriores; itivrittakas, histórias das vidas passadas dos discípulos; adbhutadharma, milagres de Buda; avadana, alegorias; upadesa, discussões da doutrina; udana, postulados não solicitados da doutrina; vaipulya, discursos estendidos; e vyakana, profecias de iluminação.
  22. Roda de Nascimentos e Mortes. O renascer sem fim do qual somente budas escapam.
  23. Boa Estrela. No Capítulo 23 do Nirvana Sutra diz-se que Boa Estrela é um dos três filhos de Shakyamuni. E, tal como seu irmão Rahula, tornou-se um monge. No fim, ele era capaz de recitar e explicar inteiramente a literatura sagrada de seu tempo e pensou que tinha atingido o quarto reino celestial de dhyana no reino da forma. E quando o suporte cármico por tal feito exauriu-se, ele foi transportado fisicamente para o inferno do sofrimento sem fim.
  24. Sutras ou shastras. Sutras são discursos dos budas. Shastras são os discursos dos discípulos proeminentes.
  25. Branco do preto. Referência à tentativa de ver o budismo como confucionismo ou taoismo, animado pelo ensaio de Hui-lin, escrito em 435, no qual ele declarou o budismo e o confucionismo igualmente verdadeiros e nos quais ele negou a operação do carma após a morte.
  26. Demônios. Os budistas, como os seguidores de outras fés, reconhecem uma categoria de ser cujo único propósito é desvirtuar budas em potencial. Essas legiões de demônios são lideradas por Mara, a quem Buda derrotou na noite de sua iluminação.
  27. Carma. O equivalente moral da lei física de causa e efeito, o carma inclui ações do corpo, da língua e da mente. Tais ações giram a Roda de Renascimento e resultam em sofrimento. Mesmo quando uma ação é boa ela gira a Roda. O objetivo da prática budista é escapar da roda, por um fim ao Carma, agir sem agir, não atingir um renascimento melhor.
  28. Skandas. Palavra sânscrita que significa a constituição da mente ou o corpo mental das pessoas: forma, sensação, percepção, impulso e consciência.
  29. Samsara. Palavra sânscrita que significa fluxo constante, o ciclo de mortalidade, o fluxo sem fim de nascimento e morte.
  30. O Tathagata. Uma palavra para designar um buda; o nome pelo qual um buda refere-se a si mesmo. Um buda é um desperto. Um Tathagata é uma manifestação no mundo de um buda, seu corpo de transformação, em oposição a seu corpo de desfrute ou seu corpo real. Um Tathagata ensina o Dharma.
  31. Quatro elementos. Os quatro elementos constituintes de toda matéria, incluindo corpo material: terra, água, fogo e ar.
  32. Kashyapa. Também chamado Mahakashyapa, ou o Grande Kashyapa. Ele era um dos mais proeminentes discípulos e lhe é creditado ter sido Primeiro Patriarca zen na Índia. Quando Buda segurou a flor, Kashyapa sorriu em resposta, e a transmissão da mente zen começou.
  33. Bodhisattva. O ideal Mahayana. O bodhisattva condiciona sua própria liberação à de outros seres, enquanto o arhat, ideal Hinayana, preocupa-se com procurar sua própria salvação. Em vez de encolher a mente em vacuidade, como o arhat faz, o bodhisattva expande-a ao infinito. É porque ele percebe que todos os seres têm a mesma natureza de buda.
  34. Espíritos, demônios ou seres divinos. Espíritos são seres sem corpo. Os demônios incluem vários deuses do céu (devas), do mar (nagas) e da terra (yakshas). Os seres divinos incluem Indra, senhor dos 33 reinos celestes, e Brahma, senhor da criação.
  35. Um buda, um Dharma ou um bodhisattva. Constituem o Refúgio Budista, ou três jóias. Um Dharma é o ensinamento de um buda. Aqueles que seguem tal ensinamento formam a ordem dos monges, ou, na tradição Mahayana, bodhisattvas.
  36. Zen. Palavra sânscrita que significa meditação, primeiramente utilizada para transliterar dhyana. É atribuído a Bodhidharma liberar o zen da almofada de meditação, usando o termo referindo-se à mente cotidiana que vai em frente, a mente que senta sem sentar e que age sem agir.
  37. Milhares de sutras e shastras. Um catálogo do Cânone Budista Chinês, ou Tripitaka, feito no início do Séc. VI lista 2.213 trabalhos distintos. Cerca de 1.600 deles eram sutras. Muitos sutras foram adicionados ao Tripitaka desde então, mas muitos foram perdidos. O Cânone atual tem 1.662 trabalhos.
  38. Corpo e mente. O corpo de quatro elementos e a mente de cinco agregados designa o eu genericamente, mas Bodhidharma está referindo-se ao eu búdico.
  39. 39. Céu e inferno. Os budistas reconhecem quatro reinos celestes da forma, os quais são divididos em 16 ou 18 reinos celestes, e quatro sem forma. Do lado oposto da Roda existem oito infernos quentes e oito infernos frios, cada um dos quais tem quatro infernos adjacentes. Há também um número de infernos especais, tais como o inferno de escuridão e sofrimento sem fim.
  40. Fanáticos. Dentre os seguidores das várias seitas budistas e não budistas, aqueles mais sujeitos a degeneração como fanáticos foram aqueles que engajaram em ascetismo e auto-tortura ou aqueles que seguiram literalmente e não o espírito do Dharma.
  41. 41. Insuperável e completa iluminação. Anuttara-samyak-sambodhi. O objetivo dos bodhisattvas. Veja o início do Sutra do Diamante.
  42. Shakyamuni. Shakya era o nome do clã de Buda. Muni significa santo. O nome de sua família era Gautama, e seu nome pessoal era Siddharta. As datas exatas variam, mas o consenso é aproximadamente de 557 a 487 A.C.
  43. Ananda. Meio-irmão de Shakyamuni. Ele nasceu na noite da iluminação de Buda. Vinte e cinco anos após entrou na ordem como atendente pessoal de Buda. Após o nirvana de Buda, ele repetiu de memória os sermões de Buda no Primeiro Concílio.

44 Arhat. Liberar a si de renascimento é o objetivo dos seguidores do Hinayana, ou Pequeno Veículo. Um arhat está além das paixões, mas também está além da compaixão. Ele não percebe que todos os mortais compartilham a mesma natureza e que não há budas a não ser que todos sejam budas.

  1. Icchantikas. Uma classe de seres preocupados tão exclusivamente com gratificação dos sentidos que a crença religiosa está além deles. Eles quebram os preceitos e recusam-se a arrependerem-se. Uma tradução chinesa antiga do Sutra do Nirvana nega que os icchantikas possuíssem a natureza de buda. Uma vez que a proibição budista de matar intenciona evitar matar alguém capaz de atingir a budeidade, matar icchantikas era, pelo menos em teoria, isento de culpa. Uma tradução mais recente do Sutra do Nirvana, entretanto, retificou esta noção, dizendo que mesmo icchantikas têm natureza de buda.
  2. Mais baixas ordens da existência. Bestas, fantasmas famintos e sofredores no inferno.
  3. Raspar suas cabeças. Quando Shakyamuni deixou o palácio do pai no meio da noite para começar sua procura por iluminação, ele cortou com sua espada seu cabelo, que estava na altura dos ombros. O cabelo curto que restou formava cachos no sentido do relógio que nunca precisavam ser cortados novamente. Mais tarde, os membros da Ordem Budista começaram a raspar suas cabeças para distinguirem-se de outras seitas.
  4. Poderes espirituais. Os budistas reconhecem seis de tais poderes: a habilidade de ver todas as formas; a habilidade de ouvir todos os sons; a habilidade de saber os pensamentos dos outros; a habilidade de estarem em qualquer lugar ou fazer qualquer coisa a vontade; e a habilidade de conhecer o fim do renascimento.
  5. Vinte e sete patriarcas. Kashyapa foi o Primeiro Patriarca da linhagem zen. Ananda foi o segundo. Prajnatara foi o vigésimo sétimo e Bodhidharma o vigésimo oitavo. Bodhidharma foi também o Primeiro Patriarca zen na China.
  6. Selo. A transmissão da mente zen deixa uma igualdade perfeita, a qual pode sempre ser conferida com a coisa verdadeira, a qual leva tanto tempo e faz tanto som como afixar um selo.
  7. Mahayana. Maha significa grande, e yana significa veículo. A forma predominante de budismo no nordeste, centro e leste da Ásia. O Theravada (Ensinamento dos Anciões) é a forma predominante do sul e sudeste da Ásia. A palavra Hinayana é também utilizada para referir-se ao Theravada.
  8. Átomos. Os antigos budistas Sarvastivadins reconheciam partículas subatômicas chamadas parama-anu, as quais podem somente ser conhecidas através da meditação. Sete destas partículas fazem um átomo, e sete átomos fazem uma molécula, a qual é perceptível somente pelos olhos de um bodhisattva. Os sarvastivadins declaram que o corpo de uma pessoas é feito de 84.000 átomos (o número 84.000 era também utilizado para significar incontável).
  9. Grande Veículo. O Mahayana. A mente. Somente a mente pode levá-lo a todos os lugares.
  10. Seis sentidos. Visão, audição, olfato, gustação, tato e pensamento.
  11. Cinco agregados. Os cinco skandas, ou constituintes da mente: Forma, sensação, percepção, impulso e consciência.
  12. Dez direções. Os oito pontos da bússola, mais o zênite e o nadir.
  13. Arhats permanecem imóveis. O arhat alcança o quarto e final fruto do budismo Hinayana, liberação da paixão, pelo cultivo da imobilidade.
  14. Deixar o lar. Como Shakyamuni fez para procurar a iluminação. Portanto, tornar-se um monge ou monja.
  15. Local da iluminação. Bodhimandala. O centro de cada mundo, onde todos os budas alcançam a iluminação. O termo também refere-se a um templo budista.
  16. Local desabitado. Local adequado para cultivo da espiritualidade.
  17. Caminho do meio. O caminho que evita realismo e niilismo. Existência e não existência.
  18. Visão verdadeira. O Óctuplo Caminho Nobre de Buda começa com a visão verdadeira, que intenciona irromper a ilusão ou ignorância, o primeiro dos 12 elos da Corrente do Carma: ilusão, impulso, consciência, nome-e-forma, órgãos dos sentidos, contato, sensação, desejo, agarrar, existência, nascimento, envelhecimento-e-morte. Os dois primeiros referem-se à existência anterior. Os dois últimos à próxima existência.
  19. Samadí. O objetivo da meditação. Samadi é uma palavra sânscrita para mente não distraída, uma cobra dentro de um bambu.
  20. Cinco trevas. Os skandas ou agregados, os constituintes da personalidade que obscurecem o eu verdadeiro: forma, sensação, percepção, impulso e consciência.
  21. Início do nirvana. O nirvana ainda não está completo antes do corpo ser deixado para trás.
  22. Garantia de não renascimento. A corporificação de nirvana.
  23. Terra de buda. Um reino transformado de imundície à pureza pela presença de um buda, portanto, uma terra pura. Veja a última seção do capítulo um no Sutra Vimilakirti.
  24. Balsa. Buda compara seu ensinamento à uma balsa que pode ser usada para cruzar o Rio de Renascimento Sem Fim. Mas uma vez que serviu ao propósito, a balsa é inútil. Não é mais uma balsa.
  25. Deusa … garoto apunhalado. A Deusa aparece no capítulo sete do Sutra Vimilakirti. O garoto apunhalado pode ser uma referência ao cavalariço de Shakyamuni. Se for, não estou familiarizado com a história.
  26. Doze entradas. Os seis órgãos e os seis sentidos.
  27. Três alívios. A libertação da ilusão, raiva e avidez situa-se nas três portas da salvação: não-eu , não-forma e não-desejo.
  28. Wutou e futzu. Um anestésico é extraído do futzu, as raízes secundárias que crescem da raiz básica do wutou (aconitum). A raiz secundária não se desenvolve até o segundo ano da planta.
  29. Três corpos. Nirmanakaya (Shakyamuni), o sambhogakaya (Amithaba) e o dharmakaya (Vairocana).
  30. A Grande iluminação ocorreu nos Himalaias. A iluminação de Buda não ocorreu nos Himalaias, mas no antigo estado indiano de Magadha, sul do Nepal. Numa existência anterior, entretanto, Buda viveu nos Himalaias como asceta. Portanto, considerando as vidas anteriores isso é verdade.
  31. Uma pessoa pode engrandecer o caminho. O caminho não pode engrandecer uma pessoa. É um dístico de Confúcio (Analectos, Capítulo 15)
  32. Sabedoria perfeita. Esse é um parafraseamento da linha de abertura do Sutra do Coração, no qual o bodhisattva é Avalokitesvara e no qual a sabedoria perfeita, ou prajnaparamita, é nenhuma sabedoria, pois a sabedoria perfeita “foi, foi além, foi completamente além” de categorias de tempo e espaço, ser e não ser.
  33. Puro e impuro. Para uma explanação mais extensa sobre isso, veja O Despertar da Fé no Mahayana, de Ashvaghosa, onde a pureza e a impureza são chamados de iluminação e não-iluminação.
  34. Sutra das Dez Etapas … Sutra do Nirvana. Quando as traduções desses dois sutras apareceram no início do Séc. V, elas tiveram um efeito profundo no desenvolvimento do budismo na China. Dentre os seus ensinamentos estão a universalidade da natureza búdica e a natureza de nirvana pura pessoal, alegre e eterna. Até então, a doutrina do vazio ensinada pelos sutras prajnaparamita tinham dominado o budismo chinês. O Sutra das Dez Etapas, o qual detalha os estágios que os bodisatvas no seu caminho para a budeidade, é uma versão do capítulo sob o mesmo título no Sutra Avatamsaka.
  35. Seis órgãos dos sentidos. Os olhos, ouvidos, nariz, língua, pele e mente.
  36. Seis tipos de consciência. A variedade de consciências associadas com a visão, audição, olfato, gustação, tato e pensamento. O Lankavatara traz à luz compreensão, discriminação e memória (de Tathagata) para um total de oito formas de consciência.
  37. Seis estados de existência. As variedades básicas de existência através das quais os seres movem-se, tanto pensamento após pensamento ou vida após vida, até que elas atinjam a iluminação e escapem da roda se sofrimento. O sofrimento nessa roda é relativo. Os deuses no céu levam uma vida mais feliz, enquanto que os sofredores no inferno vão de dor em dor. Os demônios e os homens experimentam mais sofrimentos que os deuses mas menos que os fantasmas famintos e bestas.
  38. Prática verdadeira. Prática que leva diretamente à iluminação, em contraste à prática que leva para outro estágio de prática. Aqui a prática verdadeira refere-se a contemplar a mente.
  39. Dez boas ações. Incluem evitar as dez más ações, a saber assassínio, roubo, adultério, falsidade, calúnia, agressão verbal, maledicência, avareza, raiva e defesa de visões falsas.
  40. Cinco preceitos. São para budistas leigos. São regras contra o assassínio, roubo, adultério, falsidade e intoxicação.
  41. Três asankhya kalpas. Um universo é marcado por três fases: criação, duração e destruição. Cada uma dura inúmeros (asankhya) kalpas. Uma quarta fase de vazio não está incluída aqui pois ela não apresenta dificuldades.
  42. Era final. O primeiro período da era de um buda dura 500 anos, depois do qual a doutrina correta começa a declinar. O segundo período dura 1.000 anos, durante o qual o entendimento da doutrina declina ainda mais. O terceiro e final período, cuja duração é indefinida, testemunha o desaparecimento final da mensagem de um buda. Outra versão designa 500 anos para cada um dos três períodos.
  43. Três conjuntos de preceitos. Existem cinco para budistas leigos comuns, oito para paras os membros leigos mais devotos e dez para monges e monjas noviços. Os cinco primeiros são regras os contra o assassínio, roubo, adultério, falsidade e intoxicação. A esses cinco adicionam-se regras contra o adorno do corpo (guirlandas, jóias e perfume), conforto do corpo (cama macia) e comer demais (comer depois do almoço). E a esses oito adicionam-se postulados contra o divertimento e a posse de bens. Esses três conjuntos são resumidos pelos três votos. O voto de evitar o mal é feito por todos os crentes. O voto de cultivar virtude é feito pelos crentes leigos mais devotos. E o voto de salvar a todos os seres é feito por todos os monges e monjas.
  44. Paramitas …meios de transporte para a outra margem. Os seis paramitas começam com caridade e passam por moralidade e paciência, devoção e meditação até sabedoria. Comparando os paramitas a uma balsa que leva as pessoas para a outra margem, os budistas vêm a caridade como o vazio sem o qual um barco não pode flutuar; a moralidade como a quilha; a paciência como o casco; a devoção como o mastro; a meditação a vela e a sabedoria como a barra do leme.
  45. Leite … mingau. Depois de engajar-se em práticas ascéticas inutilmente por alguns anos, Shakyamuni quebrou seu jejum tomando esse mingau de leite oferecido por Nandabala, filha de um chefe vaqueiro. Depois de tomá-lo, ele sentou-se debaixo de uma árvore e decidiu não levantar-se até atingir a iluminação.
  46. Vairocana. Grande Buda Solar, que personifica o eu-dármico ou o corpo verdadeiro de Buda. Como tal, Vairocana é a figura central no panteão dos cinco budas dhyani, que inclui Akshobhya ao Leste, Ratnasambhava ao Sul, Amitabha ao Oeste e Amogasiddhi ao Norte.
  47. Seis períodos. Manhã, meio-dia, tarde, noite, meia-noite e madrugada.
  48. Stupas. Uma stupa é uma elevação de terra ou qualquer estrutura erigida sobre os restos, as relíquias ou escrituras de um buda. A caminhada ao redor de stupas se dá na direção dos ponteiros do relógio, com o ombro direito sempre apontando a stupa.
  49. Cinco tipos de incenso. Eles correspondem aos cinco atributos do corpo de um tathagata.
  50. Dipamkara. Shakyamuni encontrou Buda Dipamkara ao final do segundo asamkhya kalpa e ofereceu-lhe cinco lótus azuis. Dipamkara então predisse a futura budeidade de Shakyamuni. Assim Dipamkara aparece sempre que um buda recita o Dharma do Sutra do Lótus.
  51. Espiral. Um dos sinais auspiciosos de um buda é um espiral entre suas sobrancelhas que emite raios de luz.
  52. Seis atrações. Aquelas aos quais os seis sentidos apegam-se.
  53. Senhor Buda (no original em Inglês, Lord). Uma tradução de bhagavan, um dos dez títulos de buda. A tradução chinesa resulta em mundialmente honrado.
  54. Sutra da Casa de Banho. Traduzido por An Shih-Kao em meados do Séc. II. Esse breve sutra reconta o mérito ganho em fornecer casas de banho para monges.
  55. Vestimenta interna. Uma das três vestimentas reguladoras de um monge. A vestimenta interna é vestida para proteger contra o desejo. O robe de sete retalhos protege contra a raiva. E o robe de 25 retalhos protege contra a ilusão.
  56. Paraíso ocidental. Também chamado de Terra Pura. Essa terra é governada por Amithaba, um dos cinco budas dhyani, associado ao Ocidente. Invocar Amithaba de todo coração assegura ao devoto renascimento na Terra Pura, que se diz estar a milhares de quilômetros mas nem um pouco longe. Uma vez renascidos lá, os devotos têm menos problemas para entender o Dharma e atingir liberação.

Este texto foi traduzido para o português por Shinzen, que ofereceu sua tradução como presente ao Lama Samten na sua ordenação em 14 de dezembro de 1996.

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Share this on WhatsAppO Ano Novo Chinês é uma referência à data de comemoração do ano novo adotada por diversas nações do oriente que seguem um calendário tradicional distinto do ocidental, o calendário chinês. As diferenças entre os dois calendários fazem com que, todos os anos, a data de início de cada Ano Novo Chinês caia em uma data diferente do calendário ocidental.
Festival das Lanternas 2019
Share this on WhatsApp  O Festival das Lanternas data de 2.000 anos atrás. No começo da dinastia Han Oriental (25-220), o Imperador Han Mingdi era um defensor do budismo. Ele ouviu que alguns monges iluminavam lanternas nos templos para mostrar respeito ao Buda no décimo quinto dia do primeiro mês lunar. Portanto, ele ordenou que todos
Lohan App
Share this on WhatsAppAplicativo do Lohan Apresentamos orgulhosamente o Lohan App. Fantástico aplicativo que ajuda os novos interessados a conhecer o Lohan mais detalhadademente, tirar dúvidas e agendar aula teste, e dá suporte para que quequeles já associados a instituição possam acompanhar as novidades e eventos, e ler as novas publicações dos sites! Você pode
Comemoração dos alunos Lohan
Share this on WhatsAppO Ano Novo Chinês é uma referência à data de comemoração do ano novo adotada por diversas nações do oriente que seguem um calendário tradicional distinto do ocidental, o calendário chinês. As diferenças entre os dois calendários fazem com que, todos os anos, a data de início de cada Ano Novo Chinês caia em uma data diferente do calendário ocidental.
Exibição de Formas
Share this on WhatsApp O taolu inclui padrões e manobras de artes marciais, pelas quais os competidores são julgados e classificados por um júri consoante a perfeição da execução de movimentos que incluem golpes no ar com os punhos, os pés, saltos e o manuseamento de uma vasta sorte de armas e objetos. É, por
Sifu Teddy Lai
Share this on WhatsAppConsiderado hoje em Hong Kong como o grande estudioso das artes marciais tradicionais chinesas, Teddy Lai nasceu em 4 de julho de 1961 em Hong Kong – China. Em sua infância, adorava os filmes de Kung Fu populares na época, isso o fez ter uma enorme admiração por seus tios que eram mestres de Kung Fu. Seu tio Chan Shing Biu era
Ano Novo Chinês 2018
Share this on WhatsAppAno do Cão O ano lunar do Cão corresponde no Zodíaco Ocidental, ao signo da Balança. Este ano está virado para a justiça e afeição. O Cão gosta da honestidade e muitos dos problemas podem vir da sua atitude justiceira. Tudo será balançado precariamente no ano do Cão. A cena diplomática será
Leões no Portal
Share this on WhatsAppA passagem dos leões por sob o portal do Templo Lohan nos jardins da Gunag Yin! Dança do leão (chinês: 舞獅; pinyin: wǔshī) é uma forma de dança tradicional na cultura chinesa, na qual os participantes imitam os movimentos de um leão usando uma fantasia do animal. O traje de leão pode ser manejado por um único dançarino, que salta
Demonstração na Graduação
Share this on WhatsApp As demonstrações do Teste de Proficiência e Graduação na Cerimônia de Baishi foram simples, mas muito incríveis e sinceras. Não foi uma apresentação artística, mas uma celebração da união dos irmãos e família e culto ao Kung Fu e ao Shaolin. Obrigado novos discípulos e parabéns aos antigos! Amituofo Share this
Sabre e escudo
Share this on WhatsAppUm breve treino que durou 15 minutos no máximo onde revivi uma tradicional técnica de Kung Fu. O Tui Lien 5 bastões contra sabre e escudo! Pessoal consegui ter muita intimidade e os movimentos básicos nasceram com harmonia. Agora é continuar treinando! Share this on WhatsApp
Shaolin em Taiwan
Share this on WhatsAppO Discipulo Carlos César foi passar uma experiência em Taiwan com os irmãos do Tao e viajou a templos, santuários, casas de chá, locais tradicionais e antigos de Taiwan, ilha baluarte da resistência da tradicional cultura, religião e filosofias chinesas depois que a onda vermelha varreu o solo da China Continental. Durante
Erick Cavalcante
Share this on WhatsAppOlá, saudações a todos os leitores, meu nome é Erick Cavalcante, sou aluno e recentemente me tornei discípulo formal do Instituto Lohan ao participar da cerimônia de Paisi no Templo Lohan. Agradeço muito ao convite do Shifu Luis Mello para expor minha visão sobre o Kung Fu, na condição de iniciante, abordando
Shaolin
Share this on WhatsApp Um trecho do relato sensacional de Américo Sommerman, editor da Pollar Editora, responsável por traduzir fielmente a obra do Abade do Templo Shaolin, Shiyongxin para o português! Momento histórico do Kung Fu mundial, do Brasil, do Budismo Mahayana e do orientalismo em geral! Share this on WhatsApp
A pedra
Share this on WhatsAppTinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra! A pedra! Está é a mesma pedra que tentamos quebrar no braço do Shifu Dangelo Pichezzo no programa da Sabrina na Record e não conseguimos e finalmente acertamos as contas no dia do Baishi! A pedra foi quebrada! Share this
Cerimônia
Share this on WhatsApp A Cerimônia de Graduação e  Bàishī 拜師 do dia 02 de dezembro foi intenso. Iniciamos com a manutenção do Templo logo de manhã e com a aula formal especial das 10hs da manhá comandada pelo 徒弟Túdì (aprendiz) com a posição de 師弟Shīdì (irmão mais novo) Junior Borbanogo seguida do tradicional momento do Chá ao
Baishi 拜師
Share this on WhatsAppPor Dani Hu 琥 少 修 Baishi 拜師 Trata-se de uma das cerimônias mais significativas no Kung Fu tradicional, uma vez que, ela ocorre por ocasião da aceitação formal de um discípulo pelo mestre. Podemos traduzir como reverencia ao Shifu (師父), indicando uma forma de prestar respeitos ao mesmo, enquanto ele o acolhe em sua família perante
À espera
Share this on WhatsApp Mestre Shi Deyang começou a treinar no Templo Shaolin quando ele tinha  tenra idade e é descendente da 31ª geração de monges guerreiros de Dengfeng sendo discípulo direto do abade da cultura Shaolin espiritual, Grande Mestre Superior Shi Suxi que foi um dos últimos monges guerreiros de Shaolin no Século 21
Gung Gee
Share this on WhatsAppO Hung Ga Kuen (洪家拳), Hung Ga (洪家) ou Hung Kuen (洪拳), em mandarim (洪家拳) hong jia quan. É um sistema de kung fu desenvolvido no século XVII, que está associado ao herói popular chinês Wong Fei Hung, que foi mestre de Hung Ga. Considerado um sistema Nan Quan, este é um
Lohan com a Yazigi
Share this on WhatsApp Campanha da Yazigi no Templo Lohan com nossos leões chineses…e no final o santuário do Kwan Kun! A ideia é que se você sabe inglês, poderá estar em qualquer lugar! Muito bom! Aparecemos pouco, mas tá valendo! Link original da Yazigi: https://www.youtube.com/shared?ci=Rzw55hGPyDw Não ensinamos apenas inglês. Formamos Cidadãos do Mundo. Yázigi.
Evidências
Share this on WhatsAppMeir Shahar[*] [mshahar@post.tau.ac.il] Tradução de Rodrigo Wolff Apolloni[**] [shaolin.curitiba@avalon.sul.com.br] O mosteiro de Shaolin é provavelmente um dos mais famosos templos budistas do mundo. A razão não está ligada a contribuições doutrinárias de seus monges residentes, tampouco às tradições que associam o mosteiro à figura de Bodhidharma (Ta Mo), o fundador lendário da
CASA e JARDIM
Share this on WhatsAppMatéria no Globo.com -Casa e Jardim 15 LUGARES QUE VOCÊ NÃO PODE PERDER NA LIBERDADE TEMPLO LOHAN SHAOLIN KUNG FU O QUE É O templo chinês funciona em uma antiga casa portuguesa construída nos anos 1800 e recém-reformada. O espaço oferece diversas atividades e aulas ligadas à cultura chinesa, como o kung fu e o budismo. DICAS O
Dança do dragão e leão
Share this on WhatsApp Dança do leão (chinês: 舞獅; pinyin: wǔshī) é uma forma de dança tradicional na cultura chinesa, na qual os participantes imitam os movimentos de um leão usando uma fantasia do animal. O traje de leão pode ser manejado por um único dançarino, que salta e movimenta energicamente a cabeça, as mandíbulas
Seminário de Wing Chun
Share this on WhatsApp Wing Chun é um sistema de luta surgido no sul da China que se distingue pela economia de movimentos e utilização da estrutura óssea. Sendo um dos sistemas de luta mais populares em todo o mundo atualmente, a arte baseia-se na leitura da inteligência da “Garça” com a “Serpente” e na
Jornal da Gazeta
Share this on WhatsApp Um professor de artes marciais que desafia o próprio corpo. Ele consegue cravar pregos na mão, quebrar tijolos com a cabeça e entortar ferro, resultados de anos de treinamento. E com tantas habilidades, ele atrai alunos de várias partes do Brasil.   Categoria(s): Jornal da Gazeta / Jornalismo / Notícias Share
Cerimônia de Benção do Templo Lohan
Share this on WhatsApp Sutra do Coração O Bodhisattva Avalokitesvara praticava profundamente o Prajna Paramitta (a sabedoria) e viu claramente o vazio de todos os cinco agregados, e assim libertou-se de todos os sofrimentos. Ó Shariputra, forma não se diferencia de vazio, vazio não se diferencia de forma. Forma é exatamente vazio, vazio é exatamente

O Blog do Shifu

 
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